Das redes às ruas: e agora, o que fazemos com isso?
A realização da #MarchadaLiberdade em varias cidades do Brasil neste fim de semana tem suscitado reflexões sobre o propósito e o futuro dessas mobilizações descentralizadas (o que não é sinônimo de despolitizada).
Uma das polêmicas gira em torno da “esquerda naftalina” e os “novos capitalistas descentralizados”. (Veja aqui a critica do blog Passa Palavra e aqui a réplica da @ivanabentes no blog Trezentos). E a discussão continua…
De uma maneira geral, a minha opinião é de que no final das contas, novas soluções trazem novos problemas:
A Tropicalia desafiou a classe artística nacionalista misturando samba e guitarra elétrica no Chacrinha e agora o Caetano sai por ai falando besteira no Faustão. Os Pontos de Cultura abriram espaço para quem nunca teve acesso à produção de cultura, e por outro lado, tem um monte de associação bacana inadimplente por causa da ineficiente 8.666. A Marcha da Liberdade pôs geeks, senhoras, gays e vegetarianos na rua… E agora, o que fazemos com isso?
Ha muito mais entre esquerda e direita do que o velho capitalismo pode sugerir. Para perguntas do século 19, respostas do século 21: é pra confundir a cabeça mesmo.
Aproveito também para reproduzir abaixo um artigo bacana do @skarnio sobre o assunto, ja que faz muito mais sentido esse relato de quem esta la *de perto*:
Poderia se dizer que tudo começou com a repressão da Marcha da Maconha, em São Paulo, no dia 21 de maio, que provocou a Marcha pela Liberdade de Expressão – uma semana depois-, também na capital paulista, que por sua vez, acabou por ampliar-se, no dia 18 de junho, em uma Marcha Nacional pela Liberdade. Mas não foi bem assim. Também poderia se alegar que a Marcha pela Liberdade foi uma comemoração pela decisão (por unanimidade) do Supremo Tribunal Federal (STF) de liberar a realização da Marcha da Maconha em todo o país. Também não foi assim.
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As marchas que ocorreram em 40 cidades brasileiras fazem parte de uma cadeia de acontecimentos em escala global, que nos últimos meses vêm ocupando tanto a mídia comercial quanto as redes sociais na Internet. Das manifestações na Líbia, Síria, Egito, Canadá e Grécia, até as ocupações de praças na Espanha, por emprego, respeito ou liberdade, a insatisfação é global.
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Possivelmente, o maior diferencial da Marcha da Liberdade em relação a outras manifestações foi o fato de se tornar uma “marcha livre”, ou seja, aberta a todo o tipo de palavras de ordem entaladas na garganta de muitas pessoas, descrentes das organizações convencionais como os partidos, sindicatos, ongs, empresas e governos.
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Manifestação guarda-chuva
O protesto contra a repressão da polícia – que de norte ao sul do país tem acumulado casos de abuso e despreparo para lidar com protestos – foi a única bandeira em comum entre todas as manifestações. Uma bandeira que aproximou várias outras bandeiras, faixas, camisetas, tatuagens, bicicletas e hashtags. Das 2.000 pessoas da Marcha da Maconha, o número aumentou para as 5.000 presentes na marcha paulista, para chegar aos milhares nas ruas de todo o Brasil, ao mesmo tempo. Isso, sem contar as participações virtuais pela Internet, através das simbólicas confirmações de comparecimento publicadas nas agendas do Facebook, retuítes, posts, links, etc.
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retirada imediatamente por seguranças do local.
Essas ZATs (Zonas Autônomas Temporárias) ao som de batuque, música eletrônica e megafone, possuem a capacidade de atrair pessoas que não costumam se envolver em passeatas ou protestos, seja pela falta de identificação ou até mesmo pela discordância com os chavões e discursos proferidos neste tipo de evento. Porém, a presença dos mais afetados pela desigualdade social continua muito baixa. A grande maioria dos manifestantes ainda pertence à classe média.
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“É muito necessário uma manifestação contra a violência aos mais fracos.”José Aparecido, Catador de Latinhas, que “tem assistido muito a violência nas ruas” |
As marchas nos estados foram convocadas e auto-gestionadas pela Internet. A atuação de coletivos organizados, como o Fora do Eixo, teve uma importância estratégica para o sucesso da Marcha da Liberdade. Isso não apenas por conta da convocação (ou provocação) inicial, mas também pelo trabalho da animação de redes e transmissões de debates na web, que começaram vários dias antes da marcha nacional.

Cartaz do evento
Paradigmas para que te quero
Outra característica em comum, além da autogestão e do emaranhado de causas atomizadas da Marcha da Liberdade, é o debate que esse tipo de ação está provocando em setores da sociedade civil organizada. A falta de experiência e a superficialidade política de muitos manifestantes são tão nítidas quanto o desconforto dos militantes de movimentos sociais e integrantes de organizações consolidadas em lidar, e até em se posicionar, sobre o tema.
Esse desconforto acaba impedindo outras perspectivas dos recentes acontecimentos, como a leitura de que os indivíduos começaram a disputar os espaços políticos por eles mesmos, para além das organizações e coletivos. De que por trás do deslumbramento tecnológico, floresce uma sede por autonomia e livre associativismo.
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“Independente”, responde Guilherme Lima, (foto esquerda) quando pergunto para onde ele está cobrindo.
Outras perspectivas
Por mais paradoxal que seja, o individualismo emergente de um sistema competitivo como o capitalismo pode ser, justamente, o seu “bug”. Quando as pessoas perceberem que, além de participar de uma marcha no fim de semana podem, também, deixar de consumir determinados produtos e divulgar o boicote aos seus vizinhos em suas mídias sociais. Quando se recusarem a votar em uma eleição porque não apoiam nenhuma das propostas apresentadas.

Por mais passiveis de cooptação e capitalização política de organizações, as Marchas da Liberdade, ocupações, twitaços e outras formas de expressões coletivas espontâneas, são sinais de que as pessoas querem decidir e agir por elas mesmas. Se, por acaso, tais ações atraírem companhia, a marcha fica maior. Independente de quem está no megafone.
Possivelmente, o maior recado que toda esta gente diferenciada e (aparentemente) despolitizada tem para dar é: Não queremos líderes.
Texto e fotos: Thiago Skárnio
Colaboração: Luciane Zuê
Fonte: http://www.alquimidia.org/sarcastico/index.php?mod=pagina&id=12030&grupo=116
Publicado em 23/06/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

















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