Arquivo do autor:Aline Carvalho

O 8 de março, a luta das mulheres e um novo mundo possível

“Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede” 

Por Bianca Rihan∗

 

Neste dia, explorado pelo mercado através de flores e bombons, saímos às ruas por mais direitos, contra a violência, mas, sobretudo, pela desconstrução das referências que relegam as mulheres à posição de propriedade. Nossa luta é pela quebra das referências estigmatizadas de masculino e feminino, pelo fim da cultura da opressão e da exploração, pela desmercantilização de nossas vidas.

Ainda em 1791, no desenrolar da Revolução Francesa (1789), Olympe de Gourges lançava a “Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã”, denunciando a limitação da “Declaração dos Direitos do Homem”, e reivindicando a participação feminina nos espaços políticos, o fim da prostituição, e a igualdade de direitos entre os sexos. Em meio àquele cenário de ebulição, Gourges pautava o “direito feminino a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo suas capacidades” , pois “se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve poder subir também à tribuna.” Assim, chamava a atenção para a necessidade de reconhecimento de ativas participantes das lutas sociais que, contraditoriamente, viam seus direitos limitados no momento em que se alardeava o nascimento da “democracia” contemporânea:

“Diga-me, quem te deu o direito soberano de oprimir o meu sexo? (…) Ele quer comandar como déspota sobre um sexo que recebeu todas as faculdades intelectuais. (…) Esta Revolução só se realizará quando todas as mulheres tiverem consciência de seu destino deplorável e dos direitos que elas perderam na sociedade”. Muitas dessas mulheres chegaram a participar dos conflitos armados contra a monarquia absolutista, além de ocuparem todos os espaços de construção revolucionária, fazendo política em lugares até então dominados por homens e criando, inclusive, algumas organizações próprias como o “clube das tecelãs”. 

Acontece que boa parte das engrenagens dessa nova sociedade permaneceu antiga, os dominados de antes se tornaram dominantes, submetendo outros dominados. As mulheres continuaram a ser tratadas como sujeitos sem razão, e os desmandos de um governo que reivindicava os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” foram responsáveis por assassinar inúmeras delas, inclusive Olympe de Gouges, guilhotinada em 3 de março de 1793 por “querer ser um homem de estado e ter esquecido as virtudes próprias do seu sexo”.  O fim do século XVIII e o início do XIX trouxeram transformações significativas no processo produtivo mundial, acarretando a Revolução Industrial e a consolidação do sistema capitalista. O trabalho feminino foi incorporado nas fábricas com salários aproximadamente 60% menores que os dos homens, jornadas de trabalho inseguras e insalubres, que chegavam a 17 horas diárias, além da recorrência de espancamentos e ameaças sexuais. Manifestações para denunciar as insustentáveis relações começaram a explodir.

A ebulição do XIX é tão marcante para o avanço da luta das mulheres , que a memória social a relaciona diretamente com a origem do Dia Internacional da Mulher. A versão mais conhecida sobre a criação simbólica do 8 de março remonta uma greve iniciada por operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque, no ano de 1857, que solicitava a redução das jornadas, salário igual para trabalho igual, e o fim dos abusos no ambiente de trabalho. Patrões e policiais teriam trancado as manifestantes na fábrica e posto fogo em suas dependências, matando asfixiadas e carbonizadas mais ou menos 130 trabalhadoras.

Porém, pesquisas mais recentes sobre o movimento feminista contestam essa versão, afirmando que a origem do 8 de março, apesar de amalgamar um grandioso panorama de lutas, está diretamente relacionado à militância das mulheres no interior do movimento socialista. Ana Isabel Álvarez Gonzales, autora do livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres” entrecruza uma série de fontes esclarecendo a “mitologia” das versões que relegaram ao esquecimento as feministas socialistas. Segundo Gonzales, foi em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário ortodoxo), no processo da I Guerra Mundial, e de desencadeamento da Revolução Russa, que cerca de 90 mil operárias russas se organizaram contra a exploração imposta no trabalho, a fome, e a participação de seu país na guerra, liderando uma manifestação batizada de “pão e paz”.

A repercussão internacional do 8 de março, segundo Gonzales, também não teria sido firmada em 1910, como costuma apontar o senso comum. Nesse ano, Clara Zetkin sugeriu, de fato, a unificação de uma data para lembrar e reafirmar a luta das mulheres, durante a Conferência das Mulheres Socialistas em Copenhague. Porém, nos documentos sobre a conferência não há menções sobre nenhuma resolução do dia específico. Segundo a autora, a adoção do 8 de março se deu apenas em 1921, em outra conferência, a das mulheres comunistas, realizada em Moscou. Sua reivindicação passou a ser impulsionada pela recém criada 3ª Internacional, relembrando o ato das socialistas russas, e realçando a necessidade da manifestação de mulheres contra explorações de todos os tipos.

Apesar do longo histórico de luta das mulheres, em pleno século XXI continuamos agredidas pelo machismo e pelo capitalismo. As soluções forjadas por tal sistema de exploração apontam, cada vez mais, para a saciedade do mercado, que tem sua engrenagem na conivência de Estados opressores, e em ataques diretos à vida das mulheres. Seja através da exploração dos nossos corpos, da prostituição e da violência contra nós, do controle sobre nossa sexualidade, da invisibilidade de nossa dupla jornada de trabalho, dos limites a nossa autonomia, ou da negação de nossos direitos sociais.

Nos últimos meses, em que acompanhamos a onda dos megaeventos invadir o Brasil, temos nos preocupado com o aumento da exploração de meninas e mulheres em todo o território nacional. Apesar dos investimentos e oportunidades possíveis de serem gerados durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, dia após dia, nos deparamos com vários de seus efeitos negativos. Na contramão das melhorias para a população brasileira, milhares de pessoas estão sendo despejadas de suas casas para que sejam atendidos os interesses do capital, leia-se empreiteiras, empresários e cafetões. A realidade é ainda mais dura quando se trata de mulheres pobres e negras, as mais afetadas pelas remoções e maiores vítimas da exploração sexual e tráfico de pessoas.

A previsão para o aumento do número de turistas no Brasil durante a Copa do Mundo calcula um salto de 5,5 milhões para aproximadamente 7,2 milhões . Os empresários da indústria sexual, por sua vez, começaram a se movimentar cedo, lançando pacotes promocionais com a inclusão de exploração sexual de mulheres e meninas, tratadas como propriedade, comercializadas como mercadoria.

Em 2012 um site intitulado “Garota Copa Pantanal 2014” foi tirado do ar por postar fotos de meninas menores de idade em posições sensuais e com camisas promocionais do campeonato. O site passou a ser investigado devido a suspeita de “agenciar” a iniciação de adolescentes na indústria sexual.  Nos canteiros de obra dos estádios já nota-se o aumento da prostituição de mulheres, adolescentes e crianças. No ano passado, o Jornal inglês Mirror publicou uma matéria mostrando a enorme incidência de meninas exploradas sexualmente nas proximidades do Itaquerão, em São Paulo.  

Em tempos de grandes eventos observamos, ainda, um aumento das recorrentes agressões às mulheres nos meios de comunicação e campanhas publicitárias. No mês passado, diversas organizações feministas lançaram nas redes sociais uma campanha de repúdio à marca Adidas, que confeccionou camisetas comemorativas da Copa no Brasil com os desenhos de um bumbum com fio dental e de uma mulher de biquíni. Ou seja, além da violência física, sofremos também com a violência simbólica, em que as ideologias dominantes – representadas pelos sistemas simbólicos – se transformam em funções políticas para submeter a ordenação do mundo a interesses específicos. Como dispositivo de poder, a mídia atua para garantir a hegemonia estrutural das classes dominantes e a reprodução da ideologia machista, racista e homofóbica inerente ao capitalismo. Assim, os estereótipos que relegam as mulheres a posições objetificadas, seja nas campanhas publicitárias, nos comerciais de cerveja, ou em novelas, invadem nossas casas todos os dias, apresentando como natural algo que é imposto. Estamos nas ruas para denunciar essa lógica, cobrar do Estado políticas públicas de combate à exploração sexual e a democratização dos meios de comunicação.

Na levada das jornadas de junho, apontamos também para a necessidade de um plebiscito popular como oportunidade de promover reformas estruturantes na organização de poder no Brasil, questionar o caráter patriarcal do Estado, aumentar a bancada feminina no Congresso e garantir nossas demandas. Segundo dados do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), dos nossos 594 parlamentares – 513 deputados e 81 senadores – 273 são empresários, 160 da bancada ruralista, 66 compõem a bancada evangélica e apenas 91 são representantes de trabalhadoras e trabalhadores da bancada sindical. Além disso, do universo de 594 parlamentares, somente 55 são mulheres. Para que o interesse público sobreponha o privado, a democracia se aperfeiçoe, e a maior participação da população na política seja garantida, é preciso o empenho no debate sobre uma Reforma Política capaz de desafiar os interesses econômicos, mantenedores das relações promíscuas entre empresários e políticos, e a sub-representação de gênero e de raça no Congresso Nacional. Nosso grito é pelo financiamento público de campanha e pelo voto em lista fechada com alternância entre homens e mulheres, aumentando a presença de mulheres no parlamento e colocando as disputas eleitorais em torno de projetos, e não de indivíduos.

Diante das investida da sociedade capitalista e patriarcal em nos domesticar, reafirmamos a luta das mulheres pelo direito de decidir sobre a própria sexualidade, e pelo fim de todos os tipos de violência que sofremos. A todos os perpetradores a aplicação da Lei Maria da Penha. Para que parem as mortes e sequelas causadas por abortos inseguros e clandestinos, entendemos a prioridade de fortalecimento do SUS e a descriminalização e legalização do aborto.

Conforme a célebre frase de Rosa Luxemburgo que intitula este artigo: “Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”. Estamos nas ruas por outro mundo possível! Viva o 8 de março e a luta das mulheres!

 

Bianca Rihan é feminista, socialista, flamenguista e mestranda em história social pela Universidade Federal Fluminense.

Teia Rural 2013: o encontro da rede estadual dos Pontos de Cultura do Rio de Janeiro

Entre 5 e 8 de dezembro a Região Serrana recebeu a Teia Rural 2013 – o encontro da rede Estadual de Pontos de Cultura do Rio de Janeiro. Pela primeira vez realizada em três distritos (Lumiar e São Pedro, no município de Nova Friburgo, e Barra Alegre, no município de Bom Jardim), a Teia Rural recebeu agentes culturais, artistas, gestores, pesquisadores, Pontos de Cultura e outras iniciativas do Programa Cultura Viva para um fim de semana de debates, apresentações, articulações políticas e muito encantamento.

Primeiro dia da Teia Rural

O encontro contou com a presença de Pontos de Cultura de cerca de quarenta municípios do estado do Rio de Janeiro, e também de representantes do Pará, Ceará, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Brasília. Além disso, estiveram presentes Marcelo Pedroso, secretário executivo do Ministério da Cultura, presente pela primeira vez em uma Teia Estadual, Marcia Rollemberg, Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural e Juana Nunes, diretora de Cultura e Educação da Secretaria de Políticas Culturais do MinC, Olívia Bandeira, coordenadora da Diversidade Cultural da Secretaria de Estado de Cultura e o deputado Robson Leite, relator da Lei Cultura Viva no Estado do Rio de Janeiro.

Estiveram presentes representantes da Plataforma Puente / Cultura Viva Comunitaria, articulação altinoamericana de redes culturais que, inspiradas pelo Programa Cultura Viva, reivindica políticas culturais para a cultura comunitária no continente. O evento recebeu o encontro da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro, reunindo representantes de Pontos de Memória, Ecomuseus e Museus Comunitários para discutir e acordar coletivamente os princípios, missões e ações da rede, bem como estreitar contatos com os Pontos de Cultura que possuem trabalho ligados à memória. Neste sentido, a Teia do Rio fortalece este movimento ao reconhecer as ações do Programa Cultura Viva (não apenas Pontos de Cultura, mas também Pontos de Memória, Pontos de Leitura, Pontinhos e Pontões de Cultura) como parte integrante das Teias e Foruns da rede Cultura Viva.

Teia Rural 2013

Na Mostra Artística do encontro se realizaram um total de 21 apresentações culturais entre São Pedro da Serra, Lumiar e Santo Antônio, envolvendo 165 artistas no total, entre artistas locais e de outras localidades do Estado. Entre as manifestaões culturais, a Teia foi palco para os Sanfoneiros da Serra, a Banda do Ponto de Cultura de Olária, o Mineiro Pau da Escola Municipal Vieira Batista, a Contações de Histórias da Escola Granada e Moara, os grupos Danças da Terra e do Mar e Timbres e Temperos do Ponto de Cultura Os Tesouros da Terra, o Boi de Miracema do Ponto de Cultura Cara da Rua, o grupo Mais Leitura, a Banda Bordados, o coletivo Soul Atitude Social e os cantores Nelson Paes, Kleber Mendonça, Fá Gonçalves e Thiago Vernek.

Um dos principais temas debatidos no encontro foi a questão da produção cultural no meio rural. A Roda de Conversa dos Pontos de Cultura Rurais revindicou a abertura de editais e políticas públicas específicas para o meio rural, que se garantam equipamentos de comunicação como a antena Gesac de acesso à internete que a Secretaria de Estado de Cultura faça caravanas e escritórios móveis em localidades rurais para divulgação, esclarecimento e apoio aos próximos editais.

Ainda neste tema foi discutida também a necessidade de um protocolo acordado junto aos governos que possa ser acionado durante situações de desastres e catástrofes naturais nas regiões atingidas. Durante a semana, inclusive, uma forte chuva atingiu o Norte do Estado, inviabilizando a participação de ponteiros da região, mais especificamente da cidade de Macaé, fortemente atuante na rede. Solidários aos companheiros, os participantes da Teia Rural aprovaram por unanimidade uma moção de apoio à cidade de Macaé e aos Pontos de Cultura que não puderam estar presentes. Veja aqui a moção completa:  http://va.mu/dhUt

Para além da área rural, a questão da institucionalidade da cultura e a necessidade de aproximação e maior diálogo entre Estado e agentes culturais em geral foi amplamente debatida no encontro. A Roda de Conversa sobre a Lei Cultura Viva e o CPF da Cultura, por exemplo, buscou discutir os impactos do Sistema Nacional de Cultura na organização da gestão cultural e na participação social nos três níveis de governo (União, Estados e Municípios). O grupo definiu, entre suas resoluções finais: a mobilização para aprovação da PEC 150 (que define respectivamente 2%, 1,5% e 1% dos orçamentos federal, estaduais e municipais para a cultura); a gestão compartilhada do Fundo de Cultura; e a criação dos Conselhos de Cultura com paridade e condições para que a sociedade civil tenha número, formação e condições operacionais (como acesso e circulação de documentos, consultoria jurídica), com a criação inclusive de uma ouvidoria, e compreendendo também o recorte temático, de linguagem, e a diversidade regional.

Já a Lei Cultura Viva, que transforma o Programa Cultura Viva em política de estado, está em tramitação no congresso e deverá em breve passar por sua votação final. Por sua vez, a lei estadual encontra-se na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e precisa ser votada ainda em 2014, na atual legislatura do deputado Robson Leite (PT RJ), que esteve presente no encontro, caso contrário será arquivada. Sendo assim, os representantes do encontro demandaram que haja uma consulta pública a fim de efetivar a participação social, além da necessidade de se garantir o orçamento necessário para que seja implementada, uma vez que a Lei tenha entrado em vigor.

Roda de conversas

Ainda sobre esta relação entre Estado e sociedade civil, foi levantada a questão do diálogo entre as legislações existentes e da necessidade de reconhecimento e a patrimonialização de práticas culturais populares como a medicina tradicional. A Roda de Conversa sobre Cultura, Educação e Saúde trouxe assim a demanda de promover ações que contribuam com a valorização dos saberes e fazeres locais com olhar mais abrangente, a fim de garantir o direito dos atores sociais de exercer suas práticas, considerando suas formas e lógicas organizativas sem serem criminalizadas, e incluindo também as instituições, entidades universidades.

O Programa Viva, criado em 2004 pelo Ministério da Cultura, busca “desevendar o Brasil”, reconhecendo e potencializando iniciativas culturais em todo o país. Entre as mais diversas linguagens artísticas e áreas de atuação, os projetos apoiados integram uma rede de cultura e mantém encontros periódicos nas Teias.  No site www.teiarj.org e na página  https://www.facebook.com/teiaestadualdospontosdecultura encontram-se maiores informações e novidades sobre a Rede de Pontos de Cultura do Rio de Janeiro.

Originalmente publicado em: http://www.teiarj.org/index.php/component/k2/item/18-materia-teia-rural-2013

Teia Rural 2013: o encontro dos Pontos de Cultura do Estado do Rio

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O que é uma teia?

A Teia é o espaço de encontro nacional e regional dos Pontos de Cultura, e também das iniciativas em torno do Programa Cultura Viva. No estado do Rio de Janeiro, a TEIA RURAL será realizada este ano em Bom Jardim, nos municípios de Bom Jardim e Nova Friburgo, na região Serrana, entre 5 a 8 de dezembro de 2013.

O Estado Rio de Janeiro possui mais de 300 Pontos de Cultura, Pontinhos, Pontões e Pontos de Leitura pelas  8 regiões do estado: Metropolitana, Nordeste, Norte, Serrana, Baixada Litorânea, Médio Paraíba, Centro Sul e Costa Verde e divididos em cerca de 35 áreas de atuação, preservando a força motora do Cultura Viva: a diversidade.

A TEIA é um encontro, síntese do processo de empoderamento que acontece nas bases culturais da sociedade brasileira a partir do programa Cultura Viva e da organização dos pontos de cultura enquanto um movimento social. Misturando discussão política, reflexão, celebração e produção estética, a TEIA RURAL se organiza basicamente a partir de 3 grandes áreas: Fórum Estadual dos Pontos de Cultura, Mostras Artísticas/Celebrações e Seminário, e se propõe a ser um espaço de diálogo e reflexão entre os pontos de cultura, além de trazer referências conceituais da cultura contemporânea.

 

Pontos de reflexão

Cultura Comunitária ampliando o direito a cultura
Essa mesa abordará questões relacionados a importância da cultura comunitária na garantia do direito a cultura e de um desenvolvimento sustentável.  Abordando questões do Programa Cultura Viva, principal, política pública de cultura do país, que envolve uma rede de organizações de cultura comunitária espalhada no Brasil.
 
Políticas Culturais para áreas rurais
Essa mesa abordará políticas públicas de cultura voltadas para áreas rurais.  Entendo as concepções que regem as políticas de cultura para essas localidades.   O papel da cultura e a dimensão cultural que esses territórios  vivenciam em seu cotidiano.
 
Pontos de Cultura construindo um protocolo para a cultura
Essa mesa abordará experiências de diferentes áreas que são acionadas em situações de desastres naturais.   A intenção é possibilitar a criação de um conjunto de ações para serem realizadas pelos pontos de cultura em situações de desastres naturais .  Serão convidados organizações da sociedade civil, representantes governamentais e profissionais afins que possam contribuir com a elaboração deste protocolo.
 
Fórum de Pontos de Cultura e o CPF da Cultura
Essa mesa abordará questões relacionadas as normas e procedimentos que definiram as relações institucionais entre os entes federativos.  Aprofundando o debate sobre o CPF da Cultura: conselho, plano e fundo de cultura e correlacionando com a necessidade de organização dos pontos de cultura para atuarem mais diretamente nestas esferas.
 
Juventudes e os Pontos de Cultura
Essa mesa abordará a importância da participação dos e das jovens na rede de pontos de cultura.  Será destinado para garantirmos o debate sobre a participação juvenil nos pontos de cultura.

 

Como participar?

Formulário online de Pré-Inscrição, clique aqui

A organização da  TEIA RURAL fica a cargo do Fórum dos Pontos de Cultura do Rio, e está dividida em sub-comissões. Entre em contato com cada uma delas para saber como ajudar:

Captação – captacao@teiarj.org

Comunicação – comunicacao@teiarj.org

Debates – debates@teiarj.org

Infra-Estrutura – infra@teiarj.org

Comissão – comissao@teiarj.org

Contatos Gerais – teiarural2013@gmail.com

 

A Teia Rural dos Pontos de Cultura é nossa!

Participe

Interaja

Debata

Divulgue!

 

Para saber mais: http://www.teiarj.org

Siga a Teia no Facebook e fique sabendo das novidades!

Amanhã vai ser maior

Enquanto recursos públicos se evaporam em festas de fraternindade, um sino de fogo rosa soa nas nuvens” – Rimbaud

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O Coletivo Câmera Rebelde convoca: Ato pela Libertação dos Presos do dia 15 de Outubro

Será realizado na Cinelândia, em frente às escadarias da Câmara, nesta quarta-feira, dia 30 de Outubro, a partir das 18 horas, um ato político e cultural pela Libertação dos Presos do dia 15 de Outubro. Cineastas, Militantes, Artistas, Estudantes, Indígenas, Coletivos, Organizações da Sociedade Civil, todas estão convidadas para o ato que ocorrerá com performances, falas abertas e a exibição do filme Distopia (021), do cineasta Victor Ribeiro, um dos presos do dia 15.

 

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Entenda o caso*

As detenções arbitrárias cometidas pelo Estado do Rio contra os manifestantes presos no dia 15 de Outubro denuncia a forma com a qual o Brasil lida com o exercício da cidadania. Segundo informações da Polícia Civil, no protesto realizado em apoio aos professores, dia 15/10, cerca de 190 pessoas foram conduzidas à força até as delegacias, tendo ocorrido 64 casos de prisão provisória em decorrência de supostos flagrantes. Além do grande volume de detenções arbitrárias, o que qualifica especialmente este dia é o uso da Lei de Organizações Criminosas (Lei 12.805/2013) contra os manifestantes, enquadrando a atividade de protesto sob o título de “associação criminosa”. O oficio destaca também o anúncio do Estado brasileiro, mesmo antes das detenções, que se valeria desta lei, mostrando uma intenção de criminalizar a indignação popular independente da conduta individual.

Ficou evidente a tentativa de coibir a livre manifestação através do endurecimento penal e da opressão. Igualmente grave foi o uso de tipos penais inafiançáveis, para dificultar a liberdade dos manifestantes detidos, e a imposição de internação forçada para os adolescentes. No mês passado, o Relator Especial da ONU para Liberdade de Expressão disse que vê uma escalada da violência e da arbitrariedade por parte do Brasil. Sete (7) manifestantes ainda estão presos.

Na quinta-feira, dia 24, a juíza Cláudia Pomarico Ribeiro, da 21º Vara Criminal, negou o pedido de relaxamento com o pedido de liberdade de Daniela Soledad dos Santos Barbosa (Sol), estudante de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atriz – participante do grupo de teatro Tá Na Rua -, e de Victor Gonçalves Ribeiro de Souza, cineasta, um dos organizadores do Festival Globale Rio, acusados de incêndio. A Vara negou pela segunda vez o pedido de liberdade provisória para os dois. A decisão é polêmica, pois o Ministério Público, responsável pela acusação, solicitou a liberdade provisória dos jovens, alegando não haver provas de flagrante. A juíza, no entanto, levou em conta apenas o depoimento dos policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar que executaram a prisão. Uma sequência de fotos feita por Grasiele Nespoli, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, desmente a versão da PM. As imagens mostram que o fogo teria sido provocado por uma outra pessoa, diferente dos acusados, cerca de 30 minutos antes da passagem de Victor e Sol pelo local. Jair Seixas Rodrigues (Baiano), militante da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), foi enquadrado na conduta de associação criminosa. O ativista já havia alertado diversas vezes sobre uma possível perseguição por parte das autoridades públicas. Além deles, os irmãos Douglas Silva Pontes e Matheus Da Silva Pontes estão sendo processados por formação de quadrilha. Henrique Pires teve a liberdade concedida, mas teve problemas no momento do SarqSeap e ficou retido. Rafael, pessoa em situação de rua, está encarcerado desde o dia 20 de junho. Ele não portava documentos na hora da prisão.

*Nota da Justiça Global

 

Mais duas liberdades! Acaba de ser confirmado que foi concedido hoje (25) Habeas Corpus em favor dos irmãos Douglas Silva Pontes e Matheus da Silva Pontes, presos desde o dia 15/10. Estas liberdades se somam a outras duas conseguidas hoje pelo DDH: a de Victor Gonçalves Ribeiro e a de Daniela Soledad dos Santos Barbosa. Estamos acompanhando o cumprimento das decisões, que devem ser efetivadas no prazo legal de 24 horas. Ainda permanecem presos os manifestantes Henrique Costa Pires e Jair Seixas (Baiano). Ninguém será esquecido!

Lei Cultura Viva chega ao Senado: agora é PL 90/13!

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O Projeto de Lei que “Institui a Política Nacional de Cultura Viva, destinada a promover a produção e a difusão da cultura e o acesso aos direitos culturais dos diferentes núcleos comunitários de cultura”, depois de aprovado por unanimidade em 3 Comissões temáticas da Câmara dos Deputados, chega ao Senado Federal, para uma etapa decisiva em sua tramitação!

Após a escolha do relator, que deve se dar nos próximos dias, o projeto será apreciado e votado pelo Senado. Se aprovado sem alterações substanciais, o projeto segue direto para sanção presidencial. Caso haja alteração substancial, o projeto retorna à Câmara para ser votado em plenário.

O momento é decisivo! O PL Cultura Viva, apresentado ao Congresso Nacional pela atual Presidente da Comissão de Cultura da Câmara, deputada Jandira Feghali, é fruto de um amplo processo de consulta e participação popular, e incorpora em seu conteúdo as mais diversas contribuições da sociedade civil e também do Ministério da Cultura, que já manifestou seu apoio à aprovação do projeto.

É muito importante que o PL Cultura Viva seja aprovado AINDA ESTE ANO pelo Senado e encaminhado para a sanção da Presidenta Dilma, selando um compromisso deste governo com a cultura viva comunitária do povo brasileiro.

PL CULTURA VIVA: Aprovação Já!

 

 

Lei Cultura Viva aprovada na Câmara dos Deputados

A Lei Cultura Viva foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados do Brasil. Agora o projeto vai direto para o Senado. Se aprovado, segue para a sanção presidencial!
 
Esta é uma demanda real da sociedade civil, protagonista do Programa Cultura Viva que foi desenvolvido pelo Ministério da Cultura e engendrou em rede cerca de 4 mil iniciativas culturais. Envolveram em suas atividades cerca de 8 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em pesquisa realizada no ano de 2009.Assim sendo, a Lei Cultura Viva é mais que a consolidação de um programa, representa uma nova forma de governos se relacionarem e dialogarem com a sociedade. Uma sociedade que há muito tempo já faz, seja diretamente pela cultura ou outros campos da vida, trabalhos em comunidade. E agora quer ser reconhecida em seu protagonismo e em suas formas de autogoverno, mais autonomas e descentralizadas.Saiba mais sobre o processo de tramitação da Lei no Infográfico:
 

Saiba mais sobre a Lei:

O que são Pontos de Cultura?Iniciativas culturais independentes, comunitárias e auto -gestionadas, articuladas  em rede, desenvolvidas com autonomia e protagonismo pela sociedade civil.

Ponto central da Lei:
Cria mecanismos permanentes – Pontos de Cultura como instrumento do estado- para uma política cultural baseada no reconhecimento e apoio do Estado às manifestações, linguagens e formas de expressão independentes e comunitárias.Para quem?

Entidades, grupos, coletivos e processos culturais de arte , cultura e comunicação de caráter independente e comunitario, informais e formais

Por que?

Para os coletivos dizerem não somente “o que querem” (ou necessitam), mas “como querem”, e assim recebem meios para essa execução direta; Para estabelecer novas formas de relacionamento entre governos e sociedade. Uma sociedade que há muito tempo já faz e que agora quer ser reconhecida em seu protagonismo e em suas formas de autogoverno.

Como:

Desburocratizando e simplificando o processo de financiamento e prestação de contas de entidades, grupos e coletivos culturais com programas do Estado.

Cadastro Nacional de Pontos de Cultura (a exemplo do currículo Lattes, do CNPQ, ou de cadastro de entidades assistenciais),

Prestação de contas:

No lugar de de convênios burocráticos, contratos e prestação de contas por resultados e com controle comunitário.

Festival Tropixel

 

O Festival TropixelArte, Ciência, Tecnologia e Sociedade vai reunir artistas, cientistas, ativistas e pesquisadores de diferentes lugares do Brasil e do mundo em Ubatuba. Realiza-se de 21 a 25 de outubro de 2013, simultaneamente à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

Chamada por Propostas de Participação

Estamos recebendo propostas de pessoas, coletivos ou organizações de qualquer localidade do Brasil ou do mundo que queiram integrar a programação do Tropixel. Serão aceitos para avaliação desde esboços até projetos já estruturados ou em implementação, em formatos diversos: oficinas, intervenções urbanas, grupos de trabalho, sessões de hacking, exibição de vídeos, apresentações artísticas, pesquisa de campo, etc. Serão escolhidas as melhores propostas que promovam o diálogo entre arte, ciência, tecnologia e sociedade e busquem reverberar na realidade de Ubatuba. Cada proposta deve estar associada a alguns do eixos temáticos do Tropixel (Ambientes, Pessoas e Coisas). As propostas podem estar associadas com organizações e comunidades da cidade: associações comunitárias, ONGs de defesa da fauna marinha, escolas técnicas, comunidades tradicionais, organizações dedicadas à sustentabilidade e permacultura, produtores culturais, pesquisadores e ativistas.

Cada proposta será estudada individualmente pela produção do Tropixel de modo a se encontrar a melhor combinação de colaboradores. Não há limites de números de submissões permitidas por indivíduo, grupo ou organização (esperamos apenas senso comum à este respeito).

Recursos

O Festival Tropixel está buscando apoio financeiro e estrutural de diferentes parceiros e organizações. Dependendo do sucesso dessas articulações, poderemos ajudar a financiar o transporte, hospedagem e alimentação para proponentes dos projetos aprovados. Aceitamos também contribuições diretas e sugestões de caminhos para o financiamento da participação de projetos. Propostas que precisem de cartas de convite já podem pedi-las pelo formulário de contato. Consulte também mais informações sobre transporte, hospedagem, clima e alimentação em Ubatuba.

Envie sua proposta!

Por favor preencha o formulário de envio de propostas. A seleção será realizada pela comissão organizadora do Tropixel. Na hipótese de surgirem propostas similares ou com temáticas relacionadas, a comissão tomará a liberdade de propor seu agrupamento ou desenvolvimento conjunto. Quanto antes sua proposta for enviada, mais tempo teremos para avaliá-la, planejar sua viabilização e construir parcerias. Não serão avaliadas propostas enviadas após o dia 01/09/2013!

 

Saiba mais: http://tropixel.ubalab.org/pt-br

 

 

Alguma coisa está fora da ordem

Derrubar as prateleiras. As vidraças. As estantes, louças, livros, sim. Eu digo não. Eu digo não ao não. Eu digo É PROIBIDO PROIBIR...”  (1968)

Ocupação do Congresso Nacional, na última segunda-feira (17) em Brasília. Foto: Mídia Ninja

Enquanto a poeira baixa, sigo acompanhando os diversos relatos do desenrolar da última semana e tentando assimilar um pouco do que está acontecendo. Ainda há muito a refletir e debater, mas como uma blogueira com ascendente em Aquário não me contive de lançar alguns palpites.

Pessoas que tradicionalmente não participam de protestos saindo às ruas, as timelines não sabem falar de outra coisa e até a Rede Globo proclamou estado de exceção em sua estimada programação para exibir (muito parcialmente) as manifestações. Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

A luta por políticas públicas de qualidade no país não é de hoje. No entanto, o “gigante” que tomou as ruas desde o início da semana teve início com a reivindicação contra o aumento das passagens. Mas, vale lembrar, ele nunca se limitou a isso. Tanto nas preliminares nas redes sociais quanto nos cartazes nas ruas, eram denunciados os gastos excessivos na Copa do Mundo frente a falta de investimentos na Saúde, Educação, Segurança Pública, Moradia, etc; a truculência e arrogância dos governos de Paes e Cabral no Rio de Janeiro e a limpeza social da cidade; a falta de representatividade dos meios de comunicação de massa; a impunidade e a corrupção. No meio de tudo isso, a sensação de “manifestar pelo direito de manifestar”, por mais vaga que seja, de uma juventude em grande parte acostumada a apenas ouvir falar de históricas manifestações nas ruas – inclusive dos seus contemporâneos egípsios, tunisianos, espanhóis, gregos, turcos. Engolindo goela abaixo que “o brasileiro é acomodado”.

A geração da petição online, que vive a integração do digital e do analógico, e que hoje se sente até meio perdida quando acaba a bateria do celular ou a conexão de internet – e eu me incluo nesses. Em Brasília vi um cartaz que dizia “colocaram Mentos na Geração Coca Cola” (em referência a um video na internet onde se mostra o efeito explosivo da bala dentro do refrigente). Sorri. Esse parece ser o cenário. Estavam (quase) todos lá, vestidos pra guerra – torcendo pra que ela não acontecesse-, prontos pra manifestar e postar suas fotos no Facebook.

Mas limitar a análise do movimento à falta de pauta ou estratégia dos ali presentes é esvaziar uma questão muito mais complexa.

Do ponto de vista da subjetividade, uma mudança muito significativa levou aqueles milhares às ruas na segunda-feira dia 17/06: a sensação de estar fazendo parte de uma ação coletiva, de lotar da Rio Branco à Cinelândia fora do Carnaval, sentir a adrenalina de contestar a ordem estabelecida, e até poder correr de um gás lacrimogênio aqui ou ali compartilhando vinagre com desconhecidos à volta. Voltamos pra casa com a sensação de dever cumprido, com um gosto de quero mais, e com energia pra avançar no debate conceitual.

Mas aí veio a quinta-feira, 20/06. Se na segunda a polícia deu o gostinho de vitória intervindo timidamente, se for levado em consideração sua usual truculência, na quinta-feira pareciam dar um recado bem claro: “Não vamos tolerar que nenhum de vocês manchem o lindo projeto de cidade que estamos vendendo. É guerra, e temos a mídia do nosso lado”. Violência exagerada para cima dos manifestantes enquanto a tv insistia que era “uma minoria de vândalos e baderneiros”, o que, por sua vez, justifica a intervenção da polícia.

Entretanto, o que preocupa ainda está mais embaixo do pano. Ou melhor, das máscaras e capuzes: o “apartidarismo” – o movimento não seria liderado por nenhum partido político específico – sendo confundido com “antipartidarismo” – a rechaça à simples presença de partidos, seus militantes e bandeiras nos atos. Relatos contam que na manifestações de ontem as agressões físicas e verbais se dirigiam a praticamente qualquer pessoa identificada como de esquerda, e muitos saíram feridos. Isso é preocupante pelo simples fato de que não se deve proibir um direto – o da organização partidária -, duramente conquistado na nossa tão recente democracia.  E a história já nos mostrou onde essa reação nacionalista pode chegar. Por outro lado, a visível maioria de manifestantes sem partidos, que não se sentem representados pelos que aí estão, ou pela própria lógica partidária, levanta o debate sobre as formas e possibilidades de organização política. E isso se chama Reforma Política: garantir a representatividade e participação institucional de cidadãos para além da dinâmica engessada de partidos e seus comitês centrais, rever o sistema eleitoral e a política de financiamento das campanhas, e garantir mecanismos de gestão participativa para além de quatro em quatro anos.

Li muita coisa sobre a orquestração de um possível golpe de direita. Faz todo o sentido: discurso anti corrupção claramente voltado contra o Governo Federal, intimidação de partidos, caras pintadas, hino nacional e apoio da mídia (coincidentemente, da mesma Rede Globo que apoiou a ditadura militar e neoliberalismo econômico). No entanto, como bem coloca a professora Marília (num dos textos mais comentados na internet sobre o assunto): “em toda e qualquer tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a resposta popular ao ataque. Em 1964, a resposta popular foi o apoio e passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a democracia foi restabelecida”.

Não priemos cânico. Propagar a ideia de caos social apenas ajuda a reforçar a necessidade de um “salvador da pátria” que trará soluções para todos os seus problemas, escondendo atrás da cortina de fumaça seu passado político. E no ano que vem, por entre vuvuzelas e bandeirinhas, surge nas urnas o herói amarelo e azul.

Pra piorar a situação, o governo tem demonstrado total inabilidade de lidar com isso. Por arrogância ou ignorância, não tem conseguido dialogar efetivamente com o povo, que deveria ser a base de um governo de esquerda. A presidente Dilma fez um primeiro pronunciamento oficial à nação na sexta-feira, 21 de junho, em horário nobre. Tentando agradar a gregos e troianos, anunciou uma agenda política importante, que cabe agora ser cobrada, mas escorregou no discurso anti vandalismo e de preservação da ordem social – logo ela.

Sobre isso, publiquei no dia:

“Senhora Presidenta, muito bonito a senhora vir a público “dialogar” com o povo brasileiro, agradecemos a atenção.
Pedimos apenas cuidado ao categorizar as respostas à violência (policial, midiática, econômica, social) nossa de cada dia como simples vandalismo.
O que a senhora quer dizer quando afirma que democracia só se conquista com paz e ordem? A senhora certamente sempre esteve ao lado da lei para lutar por este estado democrático que tanto afirma defender, não é mesmo?
Em todo caso, tá anotado: Sistema Nacional de Mobilidade Urbana, 100% dos royalities do Pré Sal pra educação, médicos já pro SUS e Reforma Politica (sim, ela!)… tá gravado viu.
Não queremos sua saída, presidenta (até porque muito pior está na espreita para vir). Queremos apenas que faça valer os votos que colocaram a faixa presidencial nos ombros da primeira mulher, que faça valer a história e os valores da esquerda brasileira, que faça valer a voz de milhares de brasileiras e brasileiros que acreditam que um país melhor é possível.
Um beijo com todo o carinho que recebemos ontem nas ruas, e com o qual vamos retribuir nossos hóspedes, pra senhora também. Boa noite.”

Mas esse gargalo político entre governos e a população se deve, inclusive, pela falta de instrumentos de maior participação popular. A atuação dos partidos de esquerda tem sido fundamental para a construção da política econômica e social dos últimos dez anos, que, de fato, trouxe importantes mudanças. Mas a crescente resistência ao sistema partidário como a única via de participação democrática – não apenas nestas semanas, mas nos últimos anos e movimentos -, deve ser vista também como um alerta para a reivenção das formas de fazer política.

Assim sendo, três coisas me parecem importantes:

1) O estabelecimento de fóruns populares de tomada de decisão e, principalmente, de debate sobre os rumos das manifestações. A falta de informação leva ao esvaziamento conceitual dos protestos, e quando não se sabe para onde ir o vento à direita pode ser mais forte. A criação de assembléias populares, ocupando permanentemente espaços públicos como praças e universidades, permite ampliar o debate para além do círculo de amigos e experimentar na prática o que significa redes sociais. Como já vivenciado durante o acampamento OcupeRio na praça da Cinelândia em 2011, o encontro de grupos com diferentes condições sociais e estratégias políticas revela a não unanimidade do movimento, mas pode ser usado a favor de uma democracia mais diversificada. Se o que se exige é a participação popular nos processos de tomada de decisão, que comecemos propondo alguns modelos possíveis.

2) Isso me leva a crer que necessitamos de uma estratégia de comunicação eficiente, que dê conta das diversas narrativas criadas, de forma transversal. Cada cidade e movimento tem suas prioridades e dinâmicas específicas. Por isso, a circulação da informação deve visar a interação de subjetividades e uma organização mais consistente de movimento. A criação de perfis nas redes sociais para difundir os debates, bem como um sistema eficiente de compartilhamento de dados e redes nestes espaços, são alguns dos pontos que vão ajudar na afirmação do caráter popular do movimento, e dificultar a atuação de grupos totalitários.

3) Para tal, temos à disposição uma série de dispositivos que facilitam, e muito, a nossa vida: eventos criados no Facebook discutem as pautas e os locais de encontro, grupos conectados por WhatsUp trocam informações em tempo real sobre o que acontece, smartphones registram imagens confusas pela baixa qualidade e pela emoção do momento. Mas o uso de tecnologias corporativistas já se mostrou limitada e mesmo arriscada, uma vez que não se tem o controle final dos conteúdos ciruclados, entregando de bandeja informações estratégicas e dados pessoais para governos e órgãos de controle. Sendo a falta de eficiência a grande defasagem das tecnologias livres hoje, o desenvolvimento de redes livres de compartilhamento irá não apenas beneficiar a organização estratégica deste movimento quanto mostrar na prática a possibilidade de outros modelos comunicativos, sociais, e, em última instância, políticos.

De uma forma geral, a minha sensação nas ruas é de uma energia muito potente, mas que ainda precisa ser canalizada em direções mais produtivas do que gritos de ordem esvaziados e repetidos a esmo. Mas afinal, qual é a reivindicação do movimento que está tomando as ruas do Brasil? Valor justo do preço das passagens, fim da repressão policial, investimentos da Copa e Olimpíada para Saúde e Educação… Mas também gestão democrática e participativa, direito à comunicação e neutralidade da internet, preservação real do meio ambiente, garantia dos direitos e terras indígenas e griôs, dados governamentais abertos, direito de expressar sua sexualidade, contra a privatização dos espaços públicos, a especulação imobiliária e as remoções. A pluralidade das bandeiras é proporcional à insatisfação mais ou menos represada em um povo cuja diversidade cultural, social e política é tão grande quanto seu próprio território.

O Brasil está respondendo ao chamado levantado pela Primavera Árabe, o movimento dos Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, o YoSoy123 mexicano, Occupy Gezi em Istambul. Em nosso jeitinho brasileiro e antropofágico, seguimos nas redes e nas ruas para ver onde isso vai dar.

* Agradeço aos excelentes textos, videos e conversas que tive acesso nos últimos, que me ajudaram a rascunhar essa análise.

Por uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária

De 17 a 22 de maio ocorreu na cidade de La Paz, na Bolívia, o 1° Congresso Latinoamericano Cultura Viva Comunitária. O encontro teve como objetivo articular redes na região em torno da campanha de 0,1% dos orçamentos nacionais para a chamada “Cultura Viva Comunitária” – ações artísticas e culturais que operem sob a lógica do protagonismo, da autonomia, do empoderamento e da interação com a comunidade.

Entre debates, oficinas e apresentações artísticas, uma das discussões realizadas na ocasião foi a criação de uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária. Entendendo que a cultura e a produção do conhecimento também estão para além dos muros da universidade, a rede faz parte de um dos principais encaminhamentos do Congresso. Assim, a proposta é articular instituições, metodologias e experiências de formação entre os países que operem sob os princípios da descentralização, da colaboração e da diversidade.

O encontro contou com um primeiro momento de apresentação e socialização das trajetórias pessoais e institucionais de cada um dos participantes com relação a cultura. O debate foi dividido em três eixos principais: a questão das universidades hoje na América Latina e sua interação com a comunidade, a relação entre universidade e Cultura Viva Comunitária; e a formação desta rede e suas possíveis características.

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 Os desafios da universidade hoje

 Uma das principais questões levantadas no debate é o reconhecimento do saber produzido fora do âmbito acadêmico. De uma maneira geral, a universidade não compreende dinâmicas pedagógicas e culturais não inseridas em seu sistema produtivo, baseado em títulos, publicações e pontuações. Mesmo o interesse acadêmico em tais culturas às vezes a limita ao lugar de objeto de estudo, permanecendo a distância hierárquica entre pesquisador e pesquisado. Neste sentido, foi levantado o crescente número de experiências de educação não formal hoje, com o objetivo de difundir outras formas de produção de conhecimento e propor novas metodologias de difusão de saberes.

No entanto, é ressaltado o papel da certificação acadêmica, que possui um valor simbólico para aqueles que historicamente tem visto seu acesso à universidade negado. Compreendendo o sistema universitário fundamentado no tripé ensino, pesquisa e extensão, este último se apresenta como fator fundamental na interação entre academia e comunidade. Desta forma, foi questionada a sua desvalorização nos sistemas de pontuação de alguns órgãos reguladores de educação, o que desestimula o investimento neste tipo de atividade.

Universidade e Cultura Viva Comunitária

Apostando na universidade como um lugar de produção crítica de conhecimento, se faz estratégico reconhecer a existência de saberes nos mais diversos espaços, em interação com a comunidade acadêmica. Para isso, as possibilidades de interação entre atores universitários e comunitários deve passar pela formação de gestores culturais que incorporem neste processo o acúmulo gerado por estas articulações já existentes. Neste sentido, foram apresentadas experiências que abordam este diálogo de saberes, como a função da extensão universitária, pesquisas relacionadas à diversidade cultural, projetos territoriais e de inclusão socio-cultural, e a formação de educadores nas línguas dos povos originários. Entre as experiências em desenvolvimento apresentadas, foi ressaltada a importância de formar gestores culturais comunitários, a investigação e sistematização das diferentes experiências e o fortalecimento das organizações culturais. Além disso, foi colocada em questão a necessidade das instituições promoverem instâncias de reflexão e produção junto a estas organizações culturais.

A recém-criada Unila – Universidade da Integração Latinoamericana é apontada como uma experiência pioneira neste sentido. Tendo cerca de 50% do seu corpo discente formado por estudantes brasileiros e cerca de 50% de países da América Latina, e em torno de 90% de estudantes bolsistas, a Unila tem como desafio trabalhar com cultura e com integração latino americana através da valorização trinacional das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina. Foi ressaltada ainda a necessidade de pensar a Unila como um lugar estratégico da articulação Cultura Viva Comunitária, sendo destacada a importância do comprometimento dos governos das regiões com o projeto.

Por uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária

Levando em consideração a diversidade dos agentes envolvidos e suas visões sobre a cultura, o desafio da proposta reside na estruturação das organizações da Cultura Viva Comunitária como uma rede efetiva de descolonização social e cultural na América Latina: de que forma as realidades desses países afetam forma pela qual os saberes são produzidos e compartilhados? Que autores latinoamericanos não encontram lugar na universidade hoje? Como lidar com a diversidade linguística na região? Quais são os parceiros estratégicos nesta articulação?

A criação desta rede, no entanto, deve observar as diferentes condições em cada instituição para tal, considerando inclusive que muitos representantes de outras universidades, interessados no debate, não puderam estar presentes no encontro. Neste sentido, a socialização das experiências e projetos em comum foram apontados como um importante começo. Assim, a interação da Cultura Viva Comunitária através de uma rede de universidades deve se dar a partir da observação dos recursos (materiais e simbólicos) disponíveis e das demandas existentes. Para tal, foram sugeridas duas estratégias complementares: por um lado, o mapeamento de recursos, pessoas, metodologias e conhecimentos que compõe essa diversidade e que possam vir a contribuir nesta articulação, e por outro, ações de formação do próprio corpo universitário na temática do Cultura Viva Comunitária, em busca do diálogo das práticas universitárias tradicionais com este conceito.

Para o primeiro ponto, foi sugerido o mapeamento já iniciado da Universidade das Culturas (Unicult), uma rede de pesquisadores, grupos, coletivos, universidades, pontos de cultura e agentes culturais cujo objetivo é articular projetos no campo da formação cultural. Através dos recursos tecnológicos disponíveis hoje, a Unicult busca criar espaços de convergência entre instituições e agentes culturais, conectando as diversas metodologias de formação, tradicionais ou inovadoras, e criando campos de disputa de conceitos, valores e ideias, para além da rigidez das instituições e modelos acadêmicos. Disponível no link http://va.mu/cRRr, o formulário convida o público a se apresentar como “Corpo Docente” – indivíduos detentores dos mais diversos saberes e práticas – ou “Campus” – organizações e espaços de produção de conhecimento que podem ser permanentes (espaços fixos ou atividades contínuas) ou temporários (evento ou ação pontual). Além de informações básicas como contatos e links, o formulário busca incentivar a reflexão sobre o trabalho apresentado, contribuindo na sistematização de narrativas, metodologias, recursos e demandas.

Na segunda questão, foi proposta a realização de um seminário entre universidades latinoamericanas, com o objetivo de reunir e compartilhar conhecimento teórico e empiríco sobre o Cultura Viva Comunitária. Na ocasião, serão apresentadas as experiências e atividades já realizadas pela Plataforma Puente e durante o 1° Congresso Latinoamericano Cultura Viva Comunitária, além do debate conceitual sobre os eixos fundadores desta política cultural. Pensando a relação entre linguagem, política e poder nesta disputa simbólica na Latinoamérica, o seminário irá discutir as narrativas, estéticas e potencialidades desta articulação em rede. O evento, ainda sem local definido, está sendo pensado para o primeiro semestre de 2014, e deverá ser debatido e articulado ao longo deste ano de 2013.

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Além disso, a sistematização de uma agenda de eventos acadêmicos já existentes é um importante passo para a inclusão da reflexão sobre o Cultura Viva Comunitária nas redes de universidade já existentes, em vistas da consolidação de uma rede de apoio e colaboração entre universidades e estas organizações. A saber:

Junho

06, 07 e 08: Encontro Unicult: Cultura Viva e Comunitária (UFRJ, Brasil)

Julho

03, 04, 05: reunião da Plataforma JUNTOS (Guatemala)

Setembro

01: Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cultura (USP, Brasil)

Novembro

06, 07 e 08: Encontro de Interculturalidades da Unila (Foz do Iguaçu, Brasil)

- Encontro Global de Redes – Emergencia (São Paulo, Brasil)

Dezembro

- Caravana Cultura em los Barios e Reunião do comitê Gestor CVC (Buenos Aires, Argentina)

- Festival Nuestra America (Curitiba, Brasil)

- Lab sur Lab (Cochabamba, Bolívia)

Assalto Poético a La Paz

La Paz, Bolivia, testigo y protagonista de uno de los eventos culturales más importantes de los últimos años. El corazón de América Latina, escenario del mito de un Inca que vuelve a conformarse. Mientras todavía restan llegar algunos contingentes, durante la jornada de ayer tuvo lugar el Asalto Poético a La Paz, una actividad cargada de “energía lúdica y espiritualidad”, en palabras de Iván Nogales, de COMPA. “Somos generaciones de gente negada, marginalizada, olvidada, entonces la frase frente a eso fue “hay que buscar otro mundo, mejor”, sentencia Iván.

El recorrido del Asalto comenzó por el Mercado de Ciudad Satélite, para llegar luego a la Feria de las Comunicaciones y confluir en la Caravana que pasó por el Cementerio General, la Estación Central y finalmente, la Plaza San Francisco donde se realizó la apertura oficial. Un acto de sueños y rebeldías que homenajeará a La Paz.

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