1.1 – O maio de 68 francês

A França, por exemplo, vivia um momento de contínua expansão econômica, traduzida no aumento constante do poder de compra e do consumo exacerbado, impulsionado pelo rádio e pela televisão. Patrick Rotman, cineasta e historiador, afirma que “a renovação geracional e a modernização econômica, porém, iriam se chocar com uma sociedade ainda dominada pelos valores tradicionais e por uma rígida moral. Esse verdadeiro abismo entre o velho e o novo iria desembocar uma explosão repentina, quando milhões de estudantes e trabalhadores paralisaram a França em maio de 1968 ”. Estas manifestações partiam de um grupo social autônomo: jovens estudantes que trabalhavam e, por isso, tinham acesso ao consumo, ainda que de forma crítica. Suas grandes bandeiras naquele momento eram a liberalização dos costumes e reformas no modelo universitário. Era um momento de questionamento, sobretudo existencial – onde Sartre e Beauvoir foram importantes referências teóricas -, e a reivindicação por mais liberdade, emancipação e autonomia eram a pauta do dia. Em uma perspectiva cultural, a causa trabalhista também foi um grande foco da atenção dos estudantes naquele momento, que acreditavam que não se deveria viver para trabalhar, mas trabalhar para viver, e a aliança estudantil com o operariado se mostrou fundamental para as manifestações daquele período. Lemas como “Trabalhadores do mundo, divirtam-se” e “O patrão precisa de você, você não precisa dele”, visto nas ruas de Paris daquele ano, refletiam o clima de contestação da ordem burguesa de trabalho e acúmulo.

Dada a situação política na França que, diferentemente de outros países, não vivia um regime totalitário, se apoiavam em causas externas para refletir sobre as contradições do próprio país, as quais iriam questionar nas manifestações. Estas transformações culturais na França de 68 tinham suas raízes no movimento surrealista de 36, onde se questionava a concepção única de arte. Se naquele momento buscava-se democratizar o acesso à cultura, o objetivo agora era transformar a cultura, e a Revolução Cultural chinesa e o líder Mao-Tse-Tung influenciavam milhares de jovens franceses com o “Livro Vermelho”.

Além da questão comportamental, a grande reivindicação da juventude francesa era por um novo modelo educacional, de autonomia universitária e de revisão da pedagogia ultrapassada que não mais se adapatava à realidade daquela juventude. Denunciava-se as relações de poder, questionava-se a função social do conhecimento (que ao que tudo indicava, estava em funçao do capital) e reivindicava-se uma autonomia pedagógica multidisciplinar, que permitisse a participação dos estudantes na construção do conhecimento – no Brasil, a luta pela reforma universitária também recebeu influência das manifestações francesas, mas acabou ficando em segundo plano em função de uma luta maior: contra a ditadura militar, como veremos adiante. Além disso, este conflito de gerações dentro da universidade também gerou a contestação do autoritarismo e conservadorismo que separava homens e mulheres dentro dos campi. Assim, a universidade seria palco das manifestações do simbólico mês de maio de 68, quando, “liderados” pelo alemão Daniel Cohn-Bendit, estudantes ocuparam a renomada Sorbonne, após a universidade de Nanterre, no subúrbio de Paris, também já ter sido ocupada. Entre as reivindicações protestavam contra a guerra do Vietnã, onde a brutalidade da intervenção servia de justificativa para o uso da violência nos atos de oposição à guerra. As barricadas tornam-se então símbolo da resitência estudantil, evidenciando em lemas como “barricadas fecham ruas mas abrem caminhos” o caráter transformador que aquele movimento buscava ter. O presidente De Gaulle não interveio com o exército nas ocupações na universidade, com receio de que os soldados, em sua maioria rapazes de classe média que cumpriam o serviço militar obrigatório, se incorporassem à luta dos jovens companheiros estudantes, evidenciando assim uma significativa diferença na dinâmica política dos outros países.

O maio de 68 na França tem prestígio e tornou-se emblemático para aquela época, muito talvez em função da tradição revolucionária de Paris. Entretanto, a luta pela reforma universitária e pela revolução cultural de 68 não devem ficar isoladas no tempo e no espaço: tiveram desdobramentos internacionais que, em novos contextos, duram até os dias de hoje.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 02/10/2008, em Uncategorized e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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