1.3 A contracultura

A contracultura aparecia como resistência aos modelos impostos pelo capitalismo – embora também não fizessem defesa ao modelo socialista – e, variando entre o desbunde e formas mais politizadas, criticavam de uma maneira geral o autoritarismo e os valores da classe média.
Naquele momento a imaginação estava em alta, o que é claramente identificado em lemas como “A imaginação no poder”, um dos lemas das manifestações na França daquele ano.
Entre ditaduras militares, o crescimento da sociedade materialista e consumista e o engajamento político com a classe operária, jovens embarcavam em diferentes graus de psicodelia acreditando que era possível mudar o mundo e contestar a ordem moral até então vigente na sociedade ocidental.

Para os especialistas, a obra inaugural da contracultura no mundo é o poema “Uivo” de Alain Ginsberg, publicado em 56, um longo poema em seis partes, onde descreve a falência moral dos EUA e o fracasso de sua geração em mudar alguma coisa nas próprias vidas. Ginsberg fazia parte da chamada “Beat generation”, um grupo de jovens intelectuais (chamados de “beatniks”) que contestavam o consumismo e o otimismo do pós-guerra americano, o anticonsumismo generalizado e a falta de pensamento crítico. O termo, entretanto, é atribuído ao professor americano Theodore Roszac, autor em 1969 do livro “O fazer de uma contracultura – Reflexões em uma sociedade tecnocrata e a jovem oposição”, que buscava fazer um elo entre os protestos estudantis, o movimento hippie e a recusa à sociedade industrial.

No Brasil – muito em função da ditadura militar que censurava a difusão artística – a produção e o circuito cultural se viam restritos a uma certa marginalidade e nomes como Torquato Neto, Waly Salomão, Luiz Carlos Maciel, Rogério Sganzerla, além dos artistas tropicalistas, foram nomes importantes para a contracultura brasileira.
O termo contracultura se refere tanto ao conjunto de movimentos de rebelião da juventude que marcaram os anos 60 – como o movimento hippie, a música rock, a movimentação nas universidades, as viagens de mochila e o uso deliberado de drogas – como também a um certo espírito de contestação e enfrentamento da ordem vigente, de caráter profundamente radical e divergente às forças mais tradicionais de oposição a esta mesma ordem dominante.

Para Carlos Alberto Messender Pereira, trata-se de um tipo de crítica anárquica que, de certa maneira, “rompe com as regras do jogo” em termos de modo de se fazer oposição a uma determinada situação, tendo assim um papel fortemente revigorador da crítica social.
Para o crítico literário Carlos Nelson Coutinho, a contracultura no Brasil foi mais um movimento “extracultural”, se colocando mais como uma crise do que uma tentativa de resolvê-la – por não solucionar certos impasses da produção cultural em si. Entretanto, em um momento onde as concepções estruturais dos problemas político limitavam de certa forma seu conteúdo, o abstracionismo estrutural da contracultura evidenciou algumas contradições e trouxe para o plano cotidiano o debate político.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 02/10/2008, em Uncategorized e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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