3.1 A cultura extraviada em suas definições

Para iniciar, talvez seja interessante fazer uma reflexão do conceito de cultura, o que estará diretamente ligado a sua apropriação em diferentes esferas.
Como aponta Canclini, a própria definição de cultura é objeto de disputa e há muito é “extraviada em suas definições”: “Devemos considerar não só as definições múltiplas sobre o cultural dadas pelas ciências humanas e sociais, mas também as conceituações feitas pelos governos, mercados e movimentos sociais.
O treinamento antropológico para trabalhar com situações interculturais dá instrumentos valiosos para tornar visível o que sucede sob o predomínio atual da produção industrial e da circulação massiva e transnacional dos bens e mensagens culturais”.

[valores culturais e significações]

A cultura pode ser caracterizada como aquilo criado pelo homem e por todos os homens, do simplesmente dado, do “natural” que existe no mundo. “A conseqüência política desta definição foi o relativismo cultural: admitir que cada cultura tem o direito de dotar-se das suas próprias formas de organização e estilos de vida” e a noção de que “toda arte é automaticamente social, posto que emana do homem, e, assim, indiretamente, reflete seu contexto” , observando-se a complexidade de línguas, rituais, objetos e símbolos possuidores de diferentes significações e apropriações de acordo com o meio no qual está inserido.
Assim, saindo do esquema marxista que apenas diferencia valor de uso e valor de troca, Jean Baudrillard aponta ainda duas outras formas de valor: valor signo – o conjunto de conotações e implicações simbólicas, que estão associadas a este objeto e que agregam outros valores que influenciam diretamente no valor de troca – e o valor símbolo – onde o bem cultural, vinculado a rituais ou a atos particulares que ocorrem dentro da sociedade, adquirem diferentes significações .
Sobre isto, Canclini comenta: “Esta classificação de quatro tipos de valor (de uso, de troca, valor signo e valor símbolo) permite diferenciar o socioeconômico do cultural. Os dois primeiros tipos de valor têm a ver principalmente, não unicamente, com a materialidade do objeto, com a base material da vida social. Os dois últimos tipos de valor referem-se à cultura e aos processos de significação” . Retomando Bourdieu, podemos afirmar então que a sociedade se estrutura, para além das relações de força, nas relações de significação e sentido, que constituem a cultura .

[cultura como processo social]

Segundo Canclini: “A cultura apresenta-se como processos sociais e parte da dificuldade de falar dela deriva do fato de que se produz, circula e se consome na história social. (…) Daí a importância que adquiriram os estudos sobre recepção e reapropriação de bens e mensagens nas sociedades contemporâneas. Mostram como um mesmo objeto pode transformar-se através de usos e reapropriações sociais. E também como, ao nos relacionarmos uns com os outros, aprendemos a ser interculturais”.

Esta concepção processual e cambiante da cultura é o que explica a transformação do significado de bens culturais quando passados de um sistema cultural ao outro, inserindo-se novas relações sociais e simbólicas, embora possam permanecer certos traços do sentido anterior – a iconografia, por exemplo -, ainda que seus fins pragmáticos e simbólicos predominantes participem de outro sistema sociocultural: “comunicam-se significados, que são recebidos, reprocessados e recodificados. Também precisamos relacionar a análise intercultural com as relações de poder para identificar aqueles que dispõem de maior força para modificar a significação dos objetos” .

[a reprodução simbólica da cultura]

Segundo Hall, “a ação social é significativa tanto para aqueles que a praticam quanto para os que a observam: não em si mesma, mas em razão dos muitos e variados sistemas de significado que os seres humanos utilizam para definir o que significam as coisas e para codificar, organizar e regular sua conduta uns em relação aos outros” . Assim, a cultura também é uma instância simbólica da produção e reprodução da sociedade, constitutivas das interações cotidianas, à medida que na vida social se desenvolvem processos de significação.
Neste processo, toda produção – e reprodução – social é cultura, como bem evidencia Althusser ao afirmar que a sociedade se reproduz através da ideologia e Bourdieu ao interpretar a cultura como espaço de reprodução social e organização das diferenças . Neste sentido, pode ser uma instância de conformação do consenso e da hegemonia, ou seja, de configuração da cultura política e também da legitimidade. E por tratar-se de um terreno de tamanha dimensão simbólica, a cultura também está relacionada à eufemização dos conflitos sociais: no teatro, na dança, nas artes plásticas, na música, no esporte, observa-se a dramatização simbólica do que acontece na sociedade . Estas diversas definições do que é cultura, que não deixa de ser uma disputa cultural por significados, reflete, então, os conflitos nos modos de conhecer a vida social.

Esta compreensão do caráter processual e dialético da cultura é fundamental para nossa reflexão, pois “os processos de globalização exigem transcender o alcance nacional ou étnico do termo a fim de abarcar as relações interculturais”. Para Arjun Appadurai, observar o caráter cultural (no adjetivo) facilita falar da cultura não como essência ou algo que cada grupo traz em si, mas como o subconjunto de diferenças entre os grupos sociais que caracterizam assim a sua relação com significados do mundo . Resumindo, “o conjunto de processos através dos quais dois ou mais grupos representam e intuem imaginariamente o social, concebem e gerem as relações com outros” (canclini – a globalização imaginada)

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 18/10/2008, em Uncategorized e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Oi Aline! A srta. propulsora do Get CCP enecos etecetera!Procure o blogue do Kenard Kruel na sessão ” links o/` ” de meu blogue que pode ser proveitoso ao teu tcc interativo!Até algum quem sabe sei lá!;-]

  2. Aline: o Kenard Kruel é um dos biógrafos-pesquisadores do Tropicalismo no/do Piauí e conhece tod@s @s demais teóricos do movimento; procure pelo livro “Torquato Neto ou a Carne Seca é servida”.

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