Arte, politica e rock’n’roll

Por Aline Carvalho*

No início da década de 60, a produção cultural brasileira encontrava níveis de experimentação e engajamento até então nunca antes vistos no país, impulsionados pelo sentimento nacional-desenvolvimentista da era JK, das reformas de base que começavam a ser rascunhadas pelo governo de João Goulart e pela esperança de revolução socialista que rondava os ares da América Latina A chegada da ditadura militar em 64 e o cerceamento da produção pelo regime autoritário foi um verdadeiro “balde de água fria” para a vanguarda artística da época, que, entre dissidências e rupturas, buscou de alguma forma adaptar sua produção àquele novo contexto. Mas é apenas em 1968, quando é promulgado o Ato Institucional nº 5, que a censura veio a transformar mais radicalmente a cultura brasileira, atuando principalmente em dois planos: na prevenção (com cortes e vetos à produção artística e intelectual) e na punição (com inúmeras cassações, expulsões e prisões, a maioria delas não justificadas).

A década de 70 foi marcada, pelo desenvolvimento econômico e o nacionalismo exacerbado, com a vitória do Brasil na Copa do Mundo e o chamado “milagre econômico” que possibilitou a expansão da classe média e a elevação dos padrões de consumo da sociedade. Paralelamente, começa a se consolidar no Brasil a televisão, com a expansão da rede de telecomunicações patrocinada pelo governo ditatorial, em busca de uma “integração nacional”. O regime militar também enxergava a cultura de forma estratégica, e a censura não se definia pelo veto a qualquer produto cultural, mas sim por estabelecer uma “repressão seletiva” que separava o material considerado subversivo daquele que serviria aos interesses ufanistas do regime militar. Era então o terreno ideal para a consolidação de uma indústria cultural que, com forte influência da cultura pop norte-americana e do capitalismo começava a desenhar novos modos para produção cultural no país.


É neste contexto que se insere a chamada “contracultura”: uma resistência aos modelos impostos pelo capitalismo que, – embora também não fizesse a defesa do modelo socialista – criticavam de uma maneira geral o autoritarismo e os valores burgueses, variando entre o desbunde e formas mais especificamente politizadas. Em um momento de falta de liberdade política, os jovens começavam a buscar outras formas de liberdade, fazendo uso de drogas, ampliando suas experimentações sexuais e recusando o modo de vida capitalista, realizando mudanças e questionamentos no plano do comportamento, e cada ação se configura uma performance.


É interessante observar que aquela geração dava continuidade, de alguma forma, a um processo de descoberta da revolução comportamental iniciado pela juventude pós 64, cuja grande parte saiu do país a partir de 68 e se começou a se integrar a experiências contraculturais principalmente na Inglaterra e Estados Unidos. A Tropicália de Hélio Oiticica, Zé Celso, Gil e Caetano, por exemplo, já havia experimentado o rompimento com o modo tradicional de se fazer arte e política, com cabelos desgrenhados, roupas chocantes e declarações perturbadoras (tanto para a direita quanto para a esquerda). Entendendo sua ação comportamental como uma ação política, a Tropicália propôs – e, de certa forma, conseguiu – incluir no plano das discussões políticas questões do cotidiano que eram consideradas “pequeno-burguesas” e “alienadas”, como o papel da mulher na sociedade, a liberdade sexual, a homossexualidade e o amor livre.


A descoberta do uso de drogas (principalmente maconha e LSD) para fins de “expansão do estado de consciência” foi talvez o grande propulsor da produção contracultural, que reunia homens e mulheres, brancos e negros, ricos e pobres em torno de um baseado no pôr do sol de Ipanema. No plano artístico, o espírito da contracultura era traduzido através da musica em uma linguagem mundial: o rock, com sua contestação ao conservadorismo dos valores tradicionais; o folk, com seu pacifismo e sua contundente crítica social; o blues, com sua melancolia que há décadas já mostrava as contradições da sociedade norte-americana. A contracultura, de uma certa forma, nasce com a inversão dos valores em relação à geração anterior – enquanto uma estava preocupada em mudar o sistema na sociedade, a outra buscava encontrar alternativas para suas próprias vidas no plano pessoal.


Para o jornalista Luiz Carlos Maciel, uma das principais figuras da contracultura na época,:“Lembrar as lições dos anos 60 não é, em absoluto, como querem fazer crer, uma manifestação de saudosismo, nostalgia ou qualquer forma de apego reacionário ao passado. Não é nada disso, seus bobos. Basta verificar o que aconteceu nos anos 70, 80 e 90, ou seja, o recrudescimento do processo de robotização global da sociedade, para admitir que essas lições precisam ser resgatadas e que a luta pela liberdade tem que recomeçar. A despeito do conformismo crescente dos últimos anos, nem tudo está perdido. Sempre é possível tentar evitar o pior. Paz e amor”1.


1MACIEL, Luiz Carlos. As quatro estações – p.167. Rio de Janeiro: Record, 2001.


* Aline Carvalho é mestranda em “Industrias Criativas: web, midia e artes” na Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicalia aos Pontos de Cultura”.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 10/09/2010, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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