Meio copo d’agua cheio ou vazio?

Outro dia conversando com um amigo sobre a politica cultural durante o governo Lula, me fiz esta pergunta. Na ocasiao, discutiamos sobre o video Remixofagia, do Rodrigo Savazoni, que exalta o carater antropofagico do governo acima mencionado, justificando sua abertura às experimentaçoes que levaram ao que se entende hoje por cultura digital. Nao é novidade que este tema nao apenas me interessa pessoalmente, quanto é um dos assuntos mais recorrentes, de posts aqui no blog a mesas de bar. Mas de fato tem algumas peças faltando neste quebra-cabeça.

O argumento deste meu amigo, um cara bem informado e com forte espirito colaborativo, era de que embora o governo brasileiro tenha-se engajado em discussoes sobre software livre e o acesso à internet tenha aumentado nos ultimos anos no Brasil, a maior parte da populaçao ainda se encontra a margem desse sistema. De fato, apesar de terem sido criados mais de 3 mil Pontos de Cultura em todo o pais, uma simples sondagem nas ruas mostra que muita gente provavelmente nem conhece essa expressao.
Mesmo os mais criticos do governo Lula dificilmente contestam o papel que teve este programa para a visibilidade da pasta da cultura. Mas ainda falta um grande passo para que os Pontos de Cultura sejam de fato conhecidos e reconhecidos pela sociedade de uma maneira geral. No sentido de irem além de um programa de governo, mas serem reamente um modelo aplicavel de gestao e açao cultural baseado no conhecimento livre.

Entretanto, o que chamamos aqui de “Ponto de Cultura”, muita gente chama de “Associaçao de Moradores”, “Comunidade”, “Cineclube”, “Pré vestibular comunitario”, “Diretorio Central de Estudantes”, etc. Ou seja, o que importa nao é o nome, mas a açao. Pontos de Cultura nao sao do governo, sao das pessoas que o fazem. Se pegarmos os 3 mil Pontos existentes hoje, e considerarmos que cada um atingiu 100 pessoas (entre participantes do projeto, suas familias e o publico direto e indireto de suas açoes), podemos ver que alguma parte do Brasil ja foi tocada por esta açao. Pessoas que nunca haviam ido ao teatro, nunca estiveram por tras de uma câmera, nunca puderam contar sua historia. Regioes que pouco viram a politica publica chegar em suas comunidades, muito menos representantes do governo pisarem em suas terras, se viram participando de conferências, encontros, residências artisticas. Algumas destas pessoas até foram parar no gabinete do Ministério, nao por “carguismos”, mas por competência comprovada em açoes que realizavam antes mesmo da politica publica chegar la.

De gravata e também de chinelo, o Ministério da Cultura entendeu que seu publico nao eram apenas os artistas com agenda marcada, mas toda a sociedade brasileira.

Se ele chegou la? Sem duvida, ainda ha muito o que fazer. A tal da “sociedade brasileira” ainda nao tem saneamento basico, nao lembra em quem votou nas ultimas eleiçoes e torce pelo paredao no Big Brother.
Mas é inegavel que uma parte consideravel dela passou a participar de editais, conheceu outras pessoas (mesmo a kilômetros de distância) que tem projetos semelhantes aos seus, passaram a usar software livre, desenvolveram redes de economia solidaria e produçao colaborativa, dançaram ciranda em um auditorio de maos dadas com gestores publicos, indios, professores, cyberativistas, mestres griôs. Pode-se até dizer que sairam alguns casamentos dessa historia toda.

E é justamente essa percepçao de que algo mudou de 2003 pra ca, que nos leva a olhar pra frente e refletir sobre o Brasil que queremos. Por que nao se trata mais de ser o pais do futuro. O Brasil ja é a 8° economia do mundo, a divisao dos rendimentos do pré-sal ja estao sendo decididos e as Olimpiadas e a Copa estao ai batendo na porta.
Enquanto a Europa se reune para decidir o futuro da internet e os Estados Unidos reforçam sua politica de copyright no mundo, o Brasil estava la “no seu canto” desenvolvendo software livre e revisando sua lei de direitos autorais. E é claro que isso nao agrada as grandes corporaçoes e certos governos – de mesma forma que o Bolsa Familia é considerado esmola por aqueles que estavam acostumados a serem os unicos com condiçoes financeiras de andar de aviao.

Entretano, é preciso defender nao apenas as experiências que deram certo, mas também reconhecer onde ficou faltando avançar: a internet barata e de qualidade ainda esta nas maos das empresas de telecomunicaçoes que decidem a seu proprio sabor a oferta de serviços; praticas cotidianas como tirar xerox de um livro na faculdade ainda sao crime segundo a lei brasileira; a legislaçao tributaria do pais nao condiz com a realidade da maior parte dos trabalhadores da cultura, deixando milhares de profissionais na ilegalidade. Por isso, defendemos a implementaçao do Plano Nacional de Banda Larga, a revisao da Lei de Direitos Autorais, a criaçao de marcos regulatorios condizentes à atividade cultural. Isto so para dar alguns exemplos no setor cultural.

E claro que ainda falta muito investimento em infra-estrutura, educaçao, saude e segurança publica. Mas nao podemos achar que é possivel consertar 500 anos em 8. Se ha uma herança que ficou de todo este processo, sao as pessoas. As redes, o aprendizado, os dialogos estabelecidos, enriqueceram um imaginario coletivo de que outra politica publica é possivel. Mais flexivel, mais dialetica, mais proxima da realidade das pessoas. E sao estas pessoas que estao tocando seus tambores e seus teclados para mostrar que existe um caminho possivel no desenvolvimento do pais.

Caso contrario, se acharmos que foi apenas um bonito espetaculo, batermos palmas e deixarmos a cortina fechar, tem um monte por ai pronto pra jogar a agua do copo fora e retomar as redeas de um pais que é ao mesmo tempo Oswald de Andrade e José Sarney.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/06/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Conversando com outros amigos sobre isso, lembrei de uma leitura obrigatória pra esse papo: “Políticas culturais do governo Lula / Gil: desafios e enfrentamentos”, do Albino Rubim (aqui: http://va.mu/HS1). Nesse texto ele faz uma abordagem muito interessante das “três tristes tradiçoes” da politica cultural brasileira: a ausência, o autoritarismo e a instabilidade. Excelente pra entender como chegamos até aqui e como escolher para onde queremos ir.

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