Das redes às ruas : questões locais para conexões globais

Estive há algumas semana em Barcelona, para apresentar a experiência do Fórum da Cultura Digital Brasileira em um workshop sobre « o futuro da web social ». Num bonito prédio hi-tech na zona moderna da cidade, discutiam-se gráficos, ferramentas e números para explicar a relação entre usuários e as infinitas redes sociais. Confesso que esse papo acadêmico de redes sociais me da um pouco de preguiça, e foi justamente nas ruas de pedra do centro antigo que surgiram instigantes reflexões sobre novas tecnologias e movimentos sociais.

Pela lei natural dos encontros, no segundo dia cai desavisada no Conservas, sede de alguns coletivos que trabalham com cultura livre e estiveram no centro das mobilizações do ultimo maio na Espanha. Meu objetivo em estar na cidade, mais do que a pesquisa que iria apresentar, era conhecer iniciativas interessantes e conversar com as pessoas, buscando respostas (e novas perguntas) para questionamentos sobre politicas publicas e democracia participativa. E assim Indignados, Democracia Real e Acampadas eram novas ideias e hashtags que entravam para as reflexões.

Logo de inicio, os debates em torno do estabelecimento de uma movimentação social participativa me chamaram a atenção pela a semelhança com o que temos buscado discutir no Brasil. Dos Pontos de Cultura à Marcha da Liberdade, passando pela conturbada I Conferência Nacional de Comunicação, cujas belas propostas não saíram do papel. Dificuldades de auto-organização coletiva, estabelecimento de metas e procedimento comuns, continuidade das atividades : estamos globalmente conectados por não apenas novas tecnologias mas também por desafios comuns de organização social, dentro de cada contexto local.

Os problemas sociais na Espanha são diferentes dos do Brasil, que são diferentes dos do Egito. Mas existe um sentimento comum de que algo esta errado no atual sistema politico e financeiro mundial, e que a sociedade não deve se calar. Ainda que seja muito complicado usar o termo « sociedade », em toda sua diversidade e divergências, hoje as movimentações politicas em um pais refletem e motivam experiências em outros territórios de forma muito mais rápida, viral e informal.

Javier Toret, filosofo e cyberativista do grupo Democracia Real Ya Barcelona, com quem tive o prazer de ter excelentes reflexões em torno de uma boa jarra de sangria, acredita que « se a democracia na época moderna era a invenção da liberdade, a democracia agora é a invenção do comum, do que nos une. Conseguimos criar um código fonte, como se fosse um software livre, e o colocamos à disposição de todos, porque nos também vimos como haviam feito nossos irmãos do mundo árabe. (…) Não se trata de como transmitir mensagens, mas como surge uma organização coletiva e interativa e se cria uma pequena inteligência coletiva. E, claro, ao liberar o código fonte, a gente o melhora e modifica » – falando sobre o aprendizado coletivo de se fazer politica 2.0.

Não é de hoje que movimentos sociais locais encontram reflexo em contextos internacionais. O próprio tão falado maio de 68 só alcançou essa dimensão histórica porque não foi apenas em Paris que jovens universitários se uniam a classe trabalhadora para lutar por mudanças sociais – mas também nos Estados Unidos, Praga, Cuba e inclusive no Brasil. Cada movimento tinha seus desafios e bandeiras, mas toda esta juventude estava de alguma forma envolta no sentimento de que uma revolução (social, cultural, politica) estava acontecendo. A diferença hoje é que a internet proporciona um contato mais imediato, que possibilita o surgimento de ideários comuns e compartilhamento experiências, buscando novas respostas para novos problemas. (Imagina se Daniel Cohn Bendit, Richard Stallman e Gilberto Gil estivessem se esbarrado no twitter ha quarenta anos atras?).

No dia 15 de maio deste ano na Espanha, 150 mil pessoas se reuniram em praças e ruas, reivindicando uma democracia participativa através da reforma politica e eleitoral. A crise financeira mundial havia agravado no pais o desemprego e precariedade principalmente do sistema de moradia e saúde. E o governo, alternado entre os dois principais partidos (Partido Popular e Partido Socialista Trabalhador da Espanha), parecia não ter respostas a estes problemas.

Muito além de instituições e partidos políticos, diversos trabalhadores, desempregados, estudantes, artistas, estrangeiros, jovens e idosos foram às ruas para manifestar sua indignação contra o atual sistema politico e dizer em uma só voz « NO NOS REPRESENTAN » (“Não nos representam”, em português).

Convocados massivamente pelo twitter (entre outras redes sociais), a maioria nunca havia participado de manifestações politicas antes, e muitos relatam que a motivação era justamente esta sensação de poder protestar individualmente, sob uma bandeira comum. Este ponto em particular muito lembra a Marcha da Liberdade que, a partir de uma repressão policial em uma marcha especifica (a Marcha da Maconha, em 21 de maio deste ano, levou a uma mobilização transversal declaradamente inspirada no maio espanhol, embora em diferentes proporções.

Em Barcelona, durante 15 dias permaneceram acampados na Praça da Catalunya, ponto central da cidade, onde se realizavam assembleias diárias para decidir coletivamente os principais pontos de reivindicação e as estratégias a seguir. Das discussões, foi elaborado o manifesto de reivindicações da chamada Acampada BCN, que pode ser encontrado aqui.

A jornalista independente Alba Munoz explica que « Nossa forma de nos comportarmos nas praças era precisamente a mesma da rede : um movimento distribuído, transversal, onde ninguém e ao mesmo tempo todos mandam, e onde é vital o trabalho digital para alcançar um comum. Reivindicávamos o anonimato enquanto experimentávamos uma participação real e livre em algo coletivo ».

Esse tipo de organização descentralizada vai de encontro direto com as instituições democráticas como conhecemos hoje, herdada de séculos anteriores. Em especial os partidos políticos – tanto de esquerda quanto de direita – tendem a encarar com desconfiança estas movimentações, ao mesmo tempo individuais e coletivas.

As recentes criticas levantadas pelo coletivo de esquerda Passa a Palavra em relação à Marcha da Liberdade e o coletivo Fora do Eixo trazem importantes pontos para pensar os movimentos sociais no século XXI : Se por um lado foi possivel mobilizar através da internet milhares de pessoas para irem às ruas levantar suas mais diversas bandeiras (liberdade de expressão, contra a corrupção, moradia, movimento gay, negro, povos tradicionais, cyberativistas, vegetarianos, ciclistas), por outro lado, é considerado por certos grupos da esquerda tradicional despolitizado e reformista , por criar um estado de comoção coletiva que terminaria por neutralizar a luta de classes hoje. Nas acampadas da Espanha, a ausência de um líder central e um programa único receberam a mesma critica : « As reivindicações dos acampados são tão amplas que fica difícil saber o que querem exatamente », diziam os meios de comunicação e políticos.

Ressalvas à parte em ambos os extremos, esta dicotomia nos leva a um questionamento essencial hoje : Das redes sociais, chegamos às ruas, e agora, como transformar estas reivindicações em ações concretas ? Esta tem sido a minha principal pergunta nos últimos meses, e até agora tenho apenas uma certeza : no final, todos queremos uma sociedade justa e igualitária, mas divergimos nos meios e estratégias para alcança-la, o que termina por bloquear processos e criar novas etapas e desafios.

E por mais espontâneo e descentralizado tenha sido o movimento das Acampadas, naturalmente estas divergências começaram a surgir, colocando em questão o rumo das mobilizações. Dialogar com o governo ou lutar contra ele ? Defender o fim do transgênicos ou continuar o processo de discussão e aprendizado ? Manter o acampamento ou criar novas ferramentas digitais para o debate ?

Ao fim do mês de maio, decidia-se desmontar o acampamento na praça e dar continuidades às movimentações de forma descentralizada, mantendo uma agenda de luta com manifestações uma vez ao mês. Assim, as passeatas do 19 de junho do 20 de julho reuniram, respectivamente, 1 milhão (em toda a Espanha) e 10 mil (em Barcelona) de indignados nas ruas em plenas férias de verão na Europa.

Toret defende que « é preciso construir uma arquitetura de participação, publica e politica, em distintas frentes e distintos níveis que permita que esse espirito se instale na vida cotidiana das pessoas. Para tal, precisamos de muitas coisas, mas uma fundamental é a rede. E que tenham espaços bem organizados de trabalho na internet ». Ha alguns anos, vem desenvolvendo o projeto n-1, uma rede social livre para ser adptada e usada para grupos e movimentos sociais se orgnanizarem digitalmente. Para ele, as hashtags criaram novos territórios de coletividade e interação, que não estão desconectados do mundo offline. Se as mobilizações na praça foram chamadas pelas redes sociais, os acontecimentos e discussões realizadas nas assembleias devem encontrar continuidade também no mundo digital.

« Hoje não é mais o pequeno recanto que reivindica sua sucessão ao universal, é o universal que chama o local para que ele venha », já dizia o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil. No caso da Espanha, e mais especificamente de Barcelona, as assembleias populares de bairro são tradicionais espaços de debate e organização social. Com a internacionalização do movimento, discute-se hoje como integrar esse dispositivo local dentro de um contexto maior e global.

No contexto brasileiro, soma-se a isto a herança antropofágica de se apropriar de referências estrangeiras – seja idealizando a grama verde do vizinho ou recriando algo tipicamente brasileiro. Os recentes investimentos em « Economia Criativa » no âmbito da política cultural nos fazem refletir : até que ponto faz sentido exportar soluções urbanísticas, econômicas ou produtivas de outras cidades (como Barcelona mesmo, que também passou por profundas reformas antes dos Jogos Olímpicos de 1992) ? Enquanto isso, coletivos independentes, associações e cooperativas, se organizam em torno da produção colaborativa, redes de economia solidaria e, mais recentemente, do crowdfunding (financiamento coletivo de projetos), buscando novas soluções locais para novos desafios globais.

Na Espanha, a ação « Toma la Calle » (“Tome a rua”, em português), reivindica a re-ocupação do espaço publico como lugar de interação e mobilização social. Mais do que definir um programa detalhado de reivindicações, concentra-se na experimentação de uma democracia direta, tendo a rua como ponto em comum. Ligado ao Democracia Real Ya, a movimentação já possui suas versões na França, Inglaterra e inclusive no Brasil, evidenciando que a insatisfação global encontrado ressonância em seus contextos específicos.

Neste caminhos, vamos que há diferentes perguntas, que demandam diferentes respostas e, naturalmente, diferentes agentes. Dos twitteiros de plantão aos revolucionários das palavras de ordem, todos tem uma contribuição nesta « revolução », se estamos falando de uma democracia participativa baseada na diversidade, e não na ditadura da maioria. Por isso, a troca de experiências entre os países proporciona o compartilhamento não apenas de soluções mas também de impasses em comum nesta experimentação.

Para os indignados espanhóis as pequenas vitorias do movimento estão baseadas na entrada de novos agentes na cena politica, uma revolução molecular que altera as micropolíticas de poder entre o pragmatismo dos movimentos de esquerda tradicionais e utopia dos “jovens pós rancor”. No Brasil, a experiência dos Pontos de Cultura agregou e potencializou uma rede de ações e agentes baseada no compartilhamento. Ambos os países seguem com novos desafios e descobertas, e o estabelecimento deste dialogo pode ser a chave para evitar os mesmos erros e seguir nesta #globalrevolution.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/08/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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