Ocupações, revoluções, redes: articulação do movimento global

A Primavera Árabe no Oriente Médio, o acampamento em Wall Street, os 99% indignados ao redor do mundo e os anônimos. Como a cultura digital altera a relação de tempo e espaço e possibilita mudanças velozes nesse mundo ligado e interconectado, em que tod@s são protagonistas?

O encontro se deu na tarde do dia 3 de dezembro no espaço Arena do Festival CulturaDigital.Br, e reuniu diversas pessoas envolvidas de alguma forma com o movimento conhecido como “Indignados”.

A primeira fala foi de Javier Toret, filósofo e cyberativista do movimento Democracia Real Ya de Barcelona. O jovem contou da experiência do 15 de maio espanhol (conhecido como “15M”), como foram inspirados pelas revoluções no norte da África, as dificuldades de manter os acampamentos nas praças por um longo período e as estratégias para a próxima fase do movimento que, em sua opinião, é global: “se a democracia na época moderna era a invenção da liberdade, a democracia agora é a invenção do comum, do que nos une.Conseguimos criar um código fonte, como se fosse um software livre, e o colocamos à disposição de todos, porque nós também vimos como haviam feito nossos irmãos do mundo árabe”.

Em seguida, Bruno Cava, blogueiro e participante do OcupaRio, faz um relato do acampamento que desde meados de outubro se montou na praça da Cinelândia, no Centro do Rio. O movimento, que começou a se articular em torno da chamada para uma movimentação global no último 15 de outubro (conhecida como “15O”), trazia pautas como fim dos privilégios políticos, democratização dos meios de comunicação e políticas ambientais sustentáveis (notadamente contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no caso brasileiro). Bruno conta que a movimentação foi feita, a princípio, por jovens universitários de classe média, mas a medida que o acampamento se montava começaram a se aproximar moradores de rua, que passaram a ocupar as barracas a infra-estrutura montada. O processo gerou problemas como furtos, brigas e agressões, mas também evidenciou conflitos sociais muitas vezes negligenciados e trouxe uma maior reflexão à proposta do movimento em si, na avaliação do rapaz. Seu Sérgio, morador de rua acampado na Cinelândia, conta: “de 148 só tem 5 barracas na Cinelândia. A realidade está ali dentro, mas na minha opinião está errada”

Maciel, outro militante do Ocupa Rio, avalia que é necessária uma política de transparência na gestão da coisa pública, evidenciando que muitos dos conflitos sociais hoje existentes são resultados da ausência do estado. Em sua opinião, praças em todo o mundo foram ocupadas baseadas na contradição do sistema capitalista e reivindica que todas as diferenças caiam por terra: “o problema não é falta de alimento, mas a falta de sensibilidade das pessoas”. Para ele, este é o grande grande êxito do Ocupa Rio, que conseguiu reunir pessoas de diferentes classes sociais, mesmo dentro de um ambiente conflituoso e enfrentando resistência externa inclusive do chamado “Choque de Ordem”, uma operação especial do governo municipal cujo o objetivo é “pôr fim à desordem urbana” (ndr: descrição retirada do site da prefeitura). Ele conta que muitos transeuntes chegavam para saber mais do movimento e perguntavam se aquilo tudo não seria uma utopia, ao passo que ele respondia “Mas se não for isso vamos começar por onde?”. E conclui: “Temos que nos indignar a cada injustiça que se levantar diante dos nossos olhos, e agradeço o Ocupa Rio por não ter perdido a ternura”.

O rapper cuiabano Linha Dura, da CUFA de Cuiabá e do Fora do Eixo, também participou do debate: “O que cultura digital tem a ver com as ocupações? A periferia ta agitada, quer entrar, quer ter acesso, Não se pode bloquear o acesso a informação”. Ele acredita que muitas vezes as favelas não conseguem ser auto-suficientes pela descrença na política: “A cada 30 reais que pago por um voto, é o nosso futuro que está sendo vendido. Não devemos esperar parados nossos direitos serem cumpridos, as redes não são só online, existem forças também offline. É preciso buscar leis não apenas no sentido de nos proteger, mas sim de juntar mais as vozes, pois o dialogo é importante”. Ele acredita que há vários novos atores nessa discussão política e conta que a CUFA de Cuiabá aprendeu muito com o diálogo e o desenvolvimento de tecnologias sociais junto com o circuito Fora do Eixo – o que levou a articulação em torno do Partido da Cultura, que reúne nacionalmente atores diversos em torno da discussão sobre políticas públicas para cultura.

Ivana Bentes provoca: “O atual movimento global é fruto da crise da esquerda tradicional, por falta de imaginação no campo da própria linguagem”.

A deixa é respondida por Gilberto Gil, embaixador do Festival, que esteve acompanhando atento a discussão desde o início: “O que vemos hoje são assimetrais subordinações de uns por outros, de subclasses por classes, de sub-homens por super-homens. A gente vê que o que permanece como tarefa é a continuação do interesse pela luta através das formas possíveis de confrontação, renovadas. É preciso considerar que apesar das novas ofertas aparentemente libertadoras dessas novas tecnologias, apesar de tudo isso, permanece a necessidade de vigilância e disposição pra lutar, tentar continuamente a atenuação, ou melhor, a eliminação possível dessa desigualdade. Trata-se de nadar contra esse rio da história, que traz tanta coisa indesejável, intolerável”. Ele acredita que o ‘hipercontrole’ possibilitado pela tecnologia risca perpetuar estas assimetrias sociais: “A possibilidade do exercício pleno universalizado da democracia e do direito são questões que permanecem. Não podemos admitir um possível determinismo nas novas tecnologias, que por si próprias trazem uma possibilidade definitiva de redenção, por isso continuemos lutando, copiando, hackeando”.

Sentado ao seu lado e igualmente atento ao debate, Jorge Mautner completa: “O Brasil é exemplo pro mundo, o Brasil tem essa característica. A estranheza da língua portuguesa levou a uma certa anarquia pacifista, que acredita na democracia e na cultura como avanço para a superação das contradições”. E conclui dizendo que o cumprimento dos direitos humanos, especialmente na internet, passa pela desobediência civil, como no acesso à pornografia e a cópia “pirata” de conteúdos.

Bruno Tarin, ativista do coletivo I-Motirõ, acredita que vivemos hoje uma “crise das representações” e pergunta: “O que está em jogo hoje?”. Ele argumenta que a elite, seja ela cultural ou financeira, não se sustenta por si só, não tem capacidade de criação, e assim parte para um movimento de expropriação a partir de dois mecanismos básicos da política: a compra e a força. E acredita que o caminho é a criação de novas perspectivas e modos de vida: “Quando não dá mais pra segurar o poder, é preciso tentar se adaptar. E é a partir justamente de processos de criação que se pode fazer com que a elite chegue junto”.

Pedro, participante da ocupação cultural Ipê e do movimento acampado na Cinelândia, relata que a convivência com moradores de rua tem trazido aprendizados que o fazem sentir um “filhinho de papai”, mesmo que não seja: “No início a maioria era da classe média, até que um dia não tínhamos mais água para beber, e instalou-se uma grande discussão: ‘agora, como fazer?’. Daí, um morador de rua entrou num bueiro e dez minutos depois eram garrafas e mais garrafas de água que era enchidas naquele buraco, o cara havia alcançado um dos canos que fazem a distribuição de água potável da cidade, algo que nenhum de nós poderia ter imaginado fazer”. Ele conta que essa forma de apropriação selvagem é também produtiva: “Tem gente que não tinha coragem de se aproximar de uma roda de conversa que hoje se vê falando meia hora durante uma assembleia, inclusive pra dizer que esse modelo de não rola. Tem assalto, tem briga, tem porrada, mas tem algo que nenhum movimento nem partido nunca deu conta, é um modelo de organização mais horizontal do qualquer outro que já vi na vida”. Ele aposta na reinvenção de formas e linguagens, e faz uma chamada aos coletivos hackers presentes no evento para conhecer o acampamento e colaborar na instalação de radio livres e streaming no acampamento.

Taz, outro integrante do movimento Ocupa Rio, faz uma abordagem histórica da cultura de organização no país, o que em sua opinião muda a forma de relação coletiva na movimentação que vem se formando mundialmente: “A realidade do Rio não é a mesma de Wallstreet. É claro que não temos as mesmas formas de organização, de uso da tecnologia, somos índios”. Ele acredita que o movimento global dos indignados inova por passar “da preocupação à ocupação” e conclui fazendo um convite ao compartilhamento de ferramentas e metodologias de organização coletiva.

Ivana conclui o debate enfatizando o caráter simultâneo desse movimento: “As experiências contemporâneas mediadas pelo uso da tecnologia geram uma afetividade global, como é o caso da TV Sol, que transmitiu em tempo contínuo o acampamento na Puerta del Sol, em Madri, gerando um sentimento de comoção coletiva e compartilhamento da causa dos indignados”. Ela acredita que o momento agora é de mapear metodologias de organização e convivência: “A internet não é apenas uma ferramenta, cada um dos movimentos históricos revolucionários tiveram uma tecnologia junto da sociedade, e parece que certos movimentos hoje não entendem isso, quando vem procurar a cultura digital, vem atrás de ferramentas. O que precisamos hoje é potencializar estas redes espalhadas pelo mundo”.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 21/12/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: