Cem anos em dez: antropofagia, redes e o prefácio do fim do mundo

E 2011 se encerra num piscar de olhos. Se os Maias tiverem acertado e o mundo acabar mesmo ano que vem, nada mais justo do que fazer um bom balanço do que aconteceu até aqui. E se em 2010 a avaliação de fim de ano foi muito mais uma projeção para o que estaria por vir no Ministério da Cultura, o momento agora é de uma avaliação crítica do que aconteceu na última década e uma reflexão sobre quais caminhos queremos seguir – pelo menos no que diz respeito à cultura, política e digital, o assunto deste humilde blog.

A entrada nos anos 2000 foi marcada por uma conexão internacional fruto da popularização da world wide web e do sentimento altermundialista, simbolizado na criação do Fórum Social Mundial. Passada esta primeira década, a impressão que se tem é de que o mundo andou cem anos em dez: não apenas do ponto de vista da tecnologia – de Personal Computers mais moderninhos a iEngenhocas de bolso, de listas de e-mail revolucionárias a redes sociais para todos os gostos -, mas também na perspectiva política – da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação ao Fórum de Governança da Internet, da derrubada das Torres Gêmeas no império americano a ditadores árabes nas praças do Oriente Médio.

E a sociedade não passou intacta por estas transformações. Assim como o capitalismo foi se reinventando e se revelando cada vez mais cognitivo, indivíduos indignados foram se conectando em rede, desvendando falhas no sistema e compartilhando gambiarras políticas, nesta que foi a mais hacker das décadas. Não é a tecnologia que muda a sociedade, é a sociedade, em suas mais diversas aspirações, que demanda o desenvolvimento tecnológico, cujas ferramentas irão potencializar o curso da história. “Tecnologia é mato. O que importa são as pessoas”, já dizia dpadua. Imagine o que teria sido do tão comentado ano de 68 se Gilberto Gil, Daniel Cohn-Bendit e Richard Stallman tivessem se esbarrado no twitter há quarenta anos atrás?

E arrumemos a nossa casa: se em Pindorama 1922 foi a antropofágica Semana de Arte Moderna, a máxima agora é “2012 é o ano das redes”. Se naquele momento o desafio era pensar uma identidade brasileira, hoje este mesmo Brasil se redescobre e se reinventa a partir de novas conexões sociais mediadas pela tecnologia, em níveis locais e globais. Mais especificamente, nos últimos oito anos grupos ativistas, hackers, acadêmicos blogueiros, gestores progressistas, artistas independentes, comunidades tradicionais e tropicalistas se encontraram em um Ministério da Cultura que, por uma brecha no sistema, abriu gabinetes e editais que levaram a uma politização da cultura e culturalização da política no país. Fruto de processos mais ou menos colaborativos, foram montados estúdios multimídias em territórios onde as políticas públicas nunca haviam chegado antes, importantes marcos regulatórios foram rediscutidos e vimos relações cognitivas entre pessoas e políticas sendo estabelecidas. Dançar ciranda na esplanada dos Ministérios pode não garantir a aprovação de uma lei ou o resultado de um edital, mas inaugura um novo paradigma político e cultural nas fronteiras entre sociedade civil, governo, academia e setor privado.

Mas novas soluções trazem também novos problemas: Se os Pontos de Cultura possibilitaram novas relações e ações entre agentes até então desconectados, também evidenciaram a inadequação da legislação brasileira para o fazer cultural hoje, e levaram à reflexão sobre a sustentabilidade de ações para além de uma cultura de editais que começava a se estabelecer – questões que nunca foram amplamente discutidas simplesmente porque este espaço era disputado apenas por uma pequena elite cultural. Mais do que um programa de governo, o Cultura Viva propôs um “Brasil debaixo pra cima” que criou as bases para que este mesmo Brasil se reconfigure, agora, em uma lógica mais horizontal – em rede.

2011 foi um ano pesado para o movimento cultural no país. A mudança de direção no Ministério da Cultura foi um balde de água fria para os que viviam o “sonho mágico da cultura viva” e trouxe novamente à cena uma elite cultural aparentemente adormecida, com seu discurso das indústrias criativas e do mito do artista. Mas às vezes é preciso dar um passo atrás para dar dois à frente. Se o desmonte de um projeto de política cultural que estava se construindo deu margem à descontinuidade de uma série de ações culturais e uma aparente desarticulação do movimento, por outro lado levou uma importante mudança de perspectiva: a questão não é o Ministério da Cultura, mas o projeto de desenvolvimento que queremos para o país. O relativo fechamento de portas do MinC impulsionou o diálogo não apenas com outros ministérios mas com outros setores da sociedade que andavam relativamente por fora deste circuito.

Santini avalia que “2011 foi o ano perdido onde a gente se encontrou”. Desde a carta aberta para a nova Ministra da Cultura, construída colaborativamente na internet entre o Natal e reveillon de 2010, a compreensão empírica da importância das redes levou ao Mobiliza Cultura, Marchas da Liberdade e Ocupações sintonizadas com o movimento global. Agregando novos parceiros-patrocinadores, o momento atual gira em torno do estreitamento de ações em rede economicamente viáveis. Pablo Capilé defende que “não existe patrocinador maior da cultura brasileira do que as nossas redes conectadas”.

E justamente por se tratarem de movimentos da sociedade, de relações humanas, é natural que hajam momentos de conflito de protagonismos no desenrolar da história. Afinal, é justamente a percepção de que o desenvolvimento do país se encontra em permanente disputa que leva o movimento cultural, em toda sua diversidade e assimetria, a buscar sempre reinventar a roda.

Mas nem tudo está ganho: ainda estamos falando de um Brasil onde a descontinuidade política, a mentalidade coronelista e o descompasso entre as leis e a sociedade ainda atravanca processos, e não podemos cair na ingenuidade de que teias e hashtags irão resolver o problema por si só. Para Alfredo Manevy, “Nos últimos 8 anos teve uma grande atualização do software do papel do Estado, mas o hardware continua velho”.

Se não é possível reverter 500 anos de colonização em 8, um importante ambiente tecnológico e afetivo foi criado para que novas ações e relações fossem estabelecidas. Enquanto seres humanos, localizados no tempo e espaço, muitas vezes buscamos soluções imediatas para processos que são muito maior do que o nosso tempo histórico. Assim, uma constante avaliação crítica se faz importante, juntamente com a recuperação de metodologias políticas e sociais que deram certo – e também as que não deram e não foram sistematizadas -, justamente para qualificarmos que rede é esta que estamos buscando fortalecer.

Ao que tudo indica, depois do pesado ano que se passou, 2012 parece chegar com ares renovados, ousados e confiantes, em busca da interoperabilidade de redes afetivas. No final das contas, a verdade não mudou: o amor é importante, e se for necessário vamos dizer tudo de novo.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 27/12/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Chris Lafayette

    O amor ainda é a mais avançada tecnologia social possível no presente!

  2. E Pelé disse Love Love love!

  3. Belas palavras Aline! A minha sensação é a mesma! Estamos acordando de um sonho para uma triste realidade… 110 anos perdidos em 1 apenas… será?

  4. sim, sim. o amor eh o mais importante. e amor é cuidado. redes afetivas de cuidado. mas cuidado!
    🙂

    segue a carruagem,

  1. Pingback: Cem anos em dez « coletivosemparedes

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