Redes digitais pela democracia real

Com um pouquinho de atraso, mas tá valendo: Minha primeira coluna para o canal Ibase (Publicado originalmente em: http://www.canalibase.org.br/redes-digitais-pela-democracia-real/)

Em breve um mais completinho sobre como foi o 12M em Madri!


No último sábado 12 de maio, uma nova chamada para a ação mundial dos indignados foi feita, celebrando e avaliando o movimento um ano depois. Sob a hashtag #12M15M, diversas cidades no mundo, inclusive no Brasil, fizeram suas intervenções.

Reunidos por um sentimento coletivo de não conformismo ao atual estágio do sistema capitalista, os autonomeados “Indignados” fazem uso de ferramentas digitais para compartilhar experiências dispersas espacialmente e debater estratégias concretas, tendo em vista o que consideram uma “democracia real”. Ação coletiva e ao mesmo tempo dispersa, as revoluções que ocorreram no norte da África no início do ano inspiraram a mobilização que ocupou as praças da Espanha em maio e a Wall Street nos Estados Unidos em outubro, além de ocupações em espaços públicos em outras cidades no mundo como Roma, Londres, Bruxelas e Rio de Janeiro – guardadas as devidas proporções.

Apesar da aparente novidade, não é de hoje que movimentos sociais locais encontram reflexo em contextos internacionais. O próprio tão falado maio de 68 só alcançou essa dimensão histórica porque não foi apenas em Paris que jovens universitários se uniam a classe trabalhadora para lutar por mudanças sociais – mas também nos Estados Unidos, Praga, Cuba e inclusive no Brasil. A diferença hoje é que a internet proporciona um contato mais imediato, que possibilita o surgimento de ideários comuns e compartilhamento de experiências, buscando novas respostas para novos problemas. (Imagine se Daniel Cohn Bendit, Richard Stallman e Gilberto Gil estivessem se esbarrado no twitter há quarenta anos atrás?).

Participantes destes novos movimentos não estão ligados apenas por uma estrutura tecnológica, mas por uma cultura política que envolve autonomia, compartilhamento e colaboração. Assistimos ao surgimento de uma nova classe política, fundada em uma dinâmica questionadora dos parâmetros hierárquicos e territoriais da democracia moderna. O pesquisador espanhol Antônio Lafuente acredita que “blogueiros e hackers são os novos cientistas e filósofos” do que ele considera o “Segundo Iluminismo”. Inspirados nos princípios de colaboração e compartilhamento do software livre e do copyleft, estas mobilizações criam suas próprias narrativas e acreditam em outras formas de produção de conhecimento.

Sob a epígrafe “todos juntos para uma mudança global”, estes cidadãos compreendem que os principais pontos fracos do sistema atual – bem como suas possibilidades de melhoria – não dependem apenas de governos isolados, mas estão diretamente ligados a organizações transnacionais – desde a Organização das Nações Unidas ao Banco Internacional do Desenvolvimento. Se por um lado demandas relativas ao meio ambiente, o sistema financeiro e contra a guerra são colocadas em questão, por outro é muito mais complexo estabelecer prioridades em uma escala mundial e tão diversa. Cada país tem suas prioridades e dinâmicas internas para a implementação de políticas públicas. Assim, o ponto em comum encontrado pelo movimento – sabendo que cada localidade possui contextos políticos específicos – é o fato que, de uma maneira geral, os governantes não têm representado os cidadãos que os elegeram. O que eles querem? O mesmo que nós, o básico da cidadania: uma participação mais efetiva da sociedade na tomada de decisões de governos.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 21/05/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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