A indignação espanhola um ano depois

ImageNo último dia 12 de maio, milhares de pessoas se reuniram nas praças e ruas da Espanha para comemorar um ano dos acampamentos que ficaram conhecidos como 15M (relativo a 15 de maio, data de início do movimento). Foram colocados em questão o atual sistema dito democrático, onde eleitos não representam seus eleitores, e o sistema financeiro internacional, que transforma em mercadoria políticas que deveriam ser acessíveis à população, como saúde, educação e moradia. Apesar de tais reivindicações já fazerem parte da pauta dos movimentos sociais tradicionais, o 15M ganhou amplitude por reunir grande parte da população que nunca havia participado de ações políticas anteriormente.

Motivados por um sentimento comum de indignação, manifestantes contam que a crise financeira que atinge o país há alguns anos levou também a uma crise social e política: a população, descrente em seus governantes e numa perspectiva de melhoria, se encontrava em um estado de individualismo e pessimismo que dificultava uma mobilização coletiva efetiva. Entretanto, inspirados pelas manifestações no Egito, na Tunísia e na Síria no ano passado, diferentes movimentos se organizaram para uma manifestação conjunta no dia 15 de maio, que levou a acampamentos mais ou menos duradouros em todas as cidades da Espanha – e a rumos que nem mesmo os próprios manifestantes haviam previsto. Para o escritor e participante do movimento Amador Fernández-Savater , o 15M “é um lugar para as pessoas que se sentem fora do lugar, um clima onde as coisas se tornam possíveis: hoje é possível pensar a vida, a política e a relação com as pessoas de outra maneira”.

Um ano depois, é chegada a hora de um balanço do que se passou. Se naquele momento, “Toma la plaza!” (Tome a praça!) era uma forma de protesto e, principalmente, de experimentação de novas formas de coletividade, hoje os acampamentos já não são o principal objetivo do movimento. A mobilização deu origem ao “Toma los barrios” (Tome os bairros!) e diversas assembleias locais foram criadas visando à continuidade do debate e à articulação de ações a médio e longo prazo. Além das reuniões para discutir as questões locais, diversas assembleias temáticas são realizadas regularmente, criando grupos permanentes de ação coletiva em temas como serviços públicos, sustentabilidade, cultura livre e metodologias de organização do próprio movimento, entre outros.

A interação entre as redes digitais e a ação nos territórios é parte fundamental da estratégia do 15M. Uma das mais bem-sucedidas ações do movimento, a ferramenta Stop Deshaucios reúne em um mapa wiki (colaborativo) os despejos programados pelo governo, por meio do qual ativistas se reúnem no dia e local para impedi-los – apenas entre os meses de março e abril, 20 famílias foram poupadas de serem desalojadas. A internet também é usada como importante espaço de comunicação, articulação e compartilhamento. A página Bookcamping, por exemplo, simula uma biblioteca online em um acampamento virtual, onde qualquer usuário pode subir e baixar conteúdos que considerem interessantes ao 15M.

E se redes sociais comerciais como Twitter e Facebook são amplamente usadas para a divulgação de informações, sua organização interna passa pelo N-1, uma ferramenta desenvolvida em software livre para movimentos sociais, que permite a criação de blogs, fóruns e listas de discussões sob diferentes graus de privacidade.

Outro exemplo do uso estratégico da internet para o reforço do sentimento de coletividade é o projeto transmídia 15M.cc. Trata-se de uma reunião de depoimentos e reflexões sobre o 15M na forma de uma página web, um documentário e um livro, todos em copyleft, onde é incentivado o remix e o desenvolvimento de ações semelhantes, sendo toda a metodologia do processo compartilhada na página do projeto.

Foto: Aline CarvalhoSe não podem contar com o governo de direita recém-eleito, estão sendo desenvolvidas estratégias e ações coletivas autônomas ao poder público. Reunidos por um sentimento coletivo de não conformismo ao atual estágio do sistema capitalista, os auto-nomeados “Indignados” se dedicam hoje à experimentação de novas formas de governança e sociabilidade, que não se aplicam da mesma forma em todas as localidades. Mostrando a força da ação coletiva frente às autoridades que têm perdido cada vez mais seu poder de repressão, a palavra de ordem do 12M15M nas praças da Espanha no último sábado foi, sem dúvida, “sí, se puede” (sim, é possível).

 

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 29/05/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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