Um ano de ‘Occupy’: outra política é possível!

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17 de setembro. Há exatamente um ano barracas se amontoavam no Zuccotti Park, em Nova York, fazendo eco à mobilização dos Indignados que, desde o início de 2011, ocupavam praças e parques do mundo inteiro. A denúncia? A submissão de 99% da população mundial às decisões políticas do 1% que detém o poder econômico. A reivindicação? Um sistema onde pessoas tenham mais importância do que bancos. A estratégia de luta? Solidariedade, consenso, não-violência.

Inspirados pelo levante popular da “Primavera Árabe”, um movimento – ou “momento”, diriam os tropicalistas – começou a tomar conta das ruas de diversas cidades espalhadas pelo mundo. Ainda que cada movimento tenha suas prioridades locais, de uma forma geral é colocada em questão a própria democracia no seu estado atual, onde representantes não correspondem aos anseios de quem os elegeu e onde o bem-estar do sistema financeiro se mostra mais relevante do que o de uma humanidade inteira. Por exemplo, quando milhares de protestos em todo o mundo se posicionavam contra a Guerra no Iraque, em 2003. Apesar de ter sido a maior mobilização da história da humanidade, ainda assim o presidente George W. Bush se sentiu no direito de ignorar a opinião pública e invadir o país, em busca do ouro preto que alimenta a máquina capitalista: petróleo.

Mas se o país tem sido o porta-voz do desrespeito à humanidade em nome de um modelo de vida, o movimento #OcuppyWallStreet questiona o tal “sonho americano”. Acampados nos entornos da Bolsa de Valores de Nova York, denunciam que a crise que o mundo enfrenta hoje não é uma questão de escassez de recursos, mas sim de sua distribuição. A manifestação busca assim lembrar que a luta é global: “Wall Street é um país estrangeiro, talvez mesmo um país inimigo”.

Não é de hoje que o sistema político e econômico articulado globalmente é questionado. Desde o fim da década de 90, uma nova onda de protestos se despedia do século XX e seu capitalismo industrial reivindicando que “um outro mundo é possível”. Num momento pós-Guerra Fria, a aparente vitória do sistema capitalista parecia ser incontestável, e alguns até se precipitavam declarando “o fim da história”. Em 1992, líderes políticos celebravam os “quinhentos anos da Descoberta das Américas”, anunciado como uma “primeira globalização”, ignorando completamente o histórico de massacre e dominação vivido pela América Latina nesses quinhentos anos. Com a entrada do México no Acordo de Livre Comércio entre as Américas, em 1994, o movimento guerrilheiro Zapatista, na zona rural do país, denunciava uma “Quarta Guerra Mundial”: a do neoliberalismo contra a humanidade. O protesto se espalhou com uma velocidade considerável graças à difusão na internet de vídeos caseiros das ações do movimento. Assim, Chiapas recebia em 1996 o “Encontro Intercontinental pela humanidade e contra o neoliberalismo”, com cerca de três mil participantes de diversos países. Este momento foi considerado uma primeira convergência histórica de lutas, cada uma com sua especificidade, que reconheciam na globalização neoliberal um inimigo comum. Dois anos depois, é criada a Ação Global dos Povos, reunindo diversos movimentos como ecologistas, gays, feministas, negros, estudantes, etc, em torno de novas formas de mobilização à era da globalização, para além da tradicional luta operária. Em 1999, milhares de manifestantes bloqueavam as ruas de Seattle, nos Estados Unidos, levando à implosão da primeira reunião da recém-criada Organização Mundial do Comércio. Uma nova forma de luta chamava a atenção: se fazendo presente a cada encontro decisivo de organizações e líderes globais, variando entre formas mais ou menos violentas de protesto, e produzindo e compartilhando seu próprio conteúdo (via Centro de Mídia Independente – Indymedia).

O movimento “alter-globalização” seguia assim até o ano de 2001, quando a violência nos protestos contra o G8 em Gênova, na Itália, e a queda das Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, confluíram para uma mudança de rumo nas mobilizações: a repressão e vigilância dos governos em nome da “luta contra o terrorismo” buscavam criminalizar e sufocar a menor manifestação nas ruas. Entretanto, dez anos depois – ou, mais precisamente, dez anos e seis dias depois – e a um quarteirão do World Trade Center, novamente homens e mulheres, jovens e velhos, estudantes e desempregados, se reuniam para a Assembleia Geral onde foi deliberado – por consenso, vale lembrar – o acampamento que ocupou o Zuccoti Park por diversas semanas. Sem violência e contando com a solidariedade dos moradores e trabalhadores locais que contribuíram com comida, agasalhos e necessidades básicas. A ocupação promoveu debates, oficinas, passeatas e recebeu políticos progressistas, jornalistas, pesquisadores e personalidades declarando apoio ao movimento.

Esta manhã, cerca de seiscentas pessoas estiveram presentes na manifestação de comemoração de um ano do movimento na zona financeira de Manhattan, e quase cem pessoas foram detidas pela polícia, embora se tratasse de um movimento de “desobediência civil não violenta”. No mundo inteiro, agitadores políticos são perseguidos e presos por seus governos (mais ou menos declarados ditadores), cidadãos são submetidos a medidas de austeridade para combater a crise financeira (enquanto seus governantes não hesitam em abastecer as reservas de instituições financeiras), povos e comunidades tradicionais são massacrados em nome de um projeto de desenvolvimento (pra quem? a que custo?).

Enquanto no Brasil se comemora as preparações para a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, moradores são expulsos de suas residências, trabalhadores se amontoam em transportes públicos cada vez mais caros e sem qualidade, e centros urbanos sofrem com obras intermináveis e corruptas, que pouco beneficiam a população local. Mais especificamente no Rio de Janeiro, quando um candidato* à prefeitura ousa apontar claramente os verdadeiros problemas e soluções da cidade é chamado de utopista, segregador, ditador, radical.

Será que a gente perdeu a esperança de que a política pode (e deve) ser humana? Que se pode (e se deve) levar em consideração os interesses da população antes do interesse das elites econômicas e políticas mundiais? Até quando os governantes vão achar que podem fazer o que querem em nosso nome? Dia 7 de outubro é dia de eleições, pense bem em que projeto de cidade queremos para o futuro do país. E se informe, compartilhe e se manifeste. Está mais do que na hora de ocupar a ideia de que uma outra política é possível.

 

Publicado originalmente em http://www.canalibase.org.br/um-ano-de-occupy-e-a-luta-por-outra-politica-continua/

 

*O candidato em questão é o atual deputado federal Marcelo Freixo. Conheça mais sobre seu trabalho, suas propostas e sua campanha colaborativa: http://www.marcelofreixo50.com.br/

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 18/09/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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