Fecho com o Rio

O rio só chega no mar
Depois de andar pelo chão
O rio da minha terra
Deságua em meu coração”

(Caetano Veloso – Onde eu nasci passa um rio, 1967)

Este domingo pode ser um dos mais importantes da história do Rio de Janeiro. Para além de uma eleição para a prefeitura, está em disputa um conceito de desenvolvimento e um projeto de cidade.

De um lado, Eduardo Paes, atual prefeito da cidade, mudou de partido quatro vezes (passando pelo PV, PFL, PTB, PSDB e atuando hoje no PMDB) e foi subprefeito de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca – onde iniciou uma amizade colorida com grupos de milícia que dominam a região da Zona Oeste, onde o poder público tem uma atuação relativamente falha.

De outro lado, está Marcelo Freixo, professor de história, filiado ao PSOL desde que este foi criado por uma corrente interna em desacordo com a gestão do PT no governo federal, tendo atuado por mais de 20 anos no partido. Deputado federal, ele presidiu a CPI das Milícias instalada em 2008, que indiciou diversos políticos, gestores e ex-policiais envolvidos com estas organizações paramilitares. Por sua atuação enquanto parlamentar e militante dos direitos humanos, inspirou o personagem Fraga do filme Tropa de Elite 2, além de ter sido ameaçado de morte diversas vezes, chegando a se ausentar do país por duas semanas a convite da Anistia Internacional.

Os que apóiam o atual prefeito afirmam que “a Prefeitura finalmente entrou em sintonia com o Estado e o Governo Federal” – e talvez justamente por isso ainda esteja faltando o cidadão carioca nessa equação. Há quem acredite que a cidade melhorou. De fato, depois de anos de briga entre César Maia e Garotinho, não é muito difícil enxergar melhorias na cidade. Entretanto, qualquer contracheque de um médico da rede pública de saúde, qualquer observação das condições de trabalho dos professores do município ou mesmo qualquer cidadão que gasta uma média de R$10 e 3 horas por dia para se locomover entre a casa e o trabalho, mostra o contrário.
Não preciso nem entrar na denúncia da corrupção (o que para Paes é um “ataque”, e não um compromisso público com a transparência governamental). Uma candidatura que reúne 20 partidos completamente distintos ideologicamente, tantas irregularidades administrativas e provas de alianças com a milícia, empreiteiras e corporações de transporte não pode ter a coerência como programa de governo. (Será que o Rio está virando São Paulo do Maluf “rouba mas faz” ?)

Os próximos quatro anos serão cruciais não apenas para a cidade do Rio mas para todo o país. A realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas tem aportado muito dinheiro e visibilidade para o Brasil, levando a uma etapa crucial para o desenvolvimento do país. A pergunta é: para quem e a que custo?

Enquanto se comemora em rtimo de carnaval a realização de mega eventos que tem contribuído muito pouco para a estrutura da cidade, moradores são expulsos de suas residências, trabalhadores se amontoam em transportes públicos cada vez mais caros e sem qualidade, e centros urbanos sofrem com obras intermináveis e corruptas, que pouco beneficiam a população local. E quando um candidato ousa apontar claramente os verdadeiros problemas e soluções da cidade é chamado de utopista, segregador, ditador, radical.

Quando perguntam “mas como ele vai governar sem a Câmara de Vereadores?”, em referência ao alto índice de corrupção dentro dessa estrutura do governo, Freixo responde: “a pergunta deveria ser ‘como a Câmara vai governar sem a população do Rio de Janeiro”. Será que a gente perdeu a esperança de que a política pode (e deve) ser humana? Que se pode (e se deve) levar em consideração os interesses da população antes do interesse das elites econômicas e políticas?

Até quando os governantes vão achar que podem fazer o que querem em nosso nome?

A campanha de Marcelo Freixo tem sido basicamente artesanal e popular, sem recursos, sem coligações e sem tempo de tevê, e grande parte da sua militância tem sido feita na internet (inclusive em função da hegemonia imposta pela milionária campanha de Eduardo Paes em regiões como a Zona Oeste do Rio, por exemplo). Talvez por isso exista ainda tanta opinião distorcida a respeito da candidatura de Freixo. Mas se o rádio não toca e a revolução não será televisionada, o que nos resta é nosso poder de comunicação. Diversos videos, cartazes, montagens e manifestações espontâneas de apoio à Marcelo Freixo têm pipocado diariamente nas redes sociais.

Enquanto o movimento Occupy surgia no mundo inteiro a energia política da França estava empenhada em eleger o Partido Socialista nas eleições presidenciais. Agora, no Rio, uma eleição se transforma em movimento social fazendo o chamado a uma Primavera Carioca.

Se informe. Procure saber sobre a história dos candidatos, suas alianças, seus programas de governo. Converse com as pessoas a sua volta, de diferentes bairros, classes sociais, formações. Procure saber se de fato os cariocas estão satisfeitos com a cidade. E, principalmente, não esqueça: Nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar (Bertold Bretch).

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#FechocomFreixo #Freixo50 #Vaitersegundoturno

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 05/10/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Oi Aline, que legal esse blog! Adorei!
    Sou amiga do seu pai, do círculo de casais.
    Ele mandou pra mim.

    Tem ótimas informações, parabéns!
    E estamos juntos com Freixo! amnhã vsamos abraçar o Maracanã!!!

    bjs, Beta

  2. Não é a toa que teu pai fala tanto de vc. Até eu senti assim um orgulho em ver como vc está
    pronta para as batalhas culturais e contra culturais que nos assola. Seu blog é ótimo, suas idéias arejadas e arrojadas. Parabéns. Com relação ao Freixo x Paes não concordo muito, mas nada compromete só acrescenta. Um presente anexo para voce. Talvez até já tenha tomado conhecimento. Ana_Carolina_DEMAIS_____1.asf
    Jose Renato

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