Entre tópicos e trópicos

Muito se fala da Tropicália. Muito já se falou, e muito ainda se vai falar. Parece que o projeto de Caetano de trazer o Brasil para a Segunda Revolução Industrial, segundo Tom Zé, foi alcançado. Há os que gostem menos, há os que gostem mais, mas uma coisa não se pode negar: A Tropicália marcou o imaginário popular do país.

Naquele momento, a ditadura militar buscava assolar uma criação artística da qual muito pouco ou nada compreendia, sob a forma da censura. Em resposta – e em convergência – a televisão em expansão canalizava as inquietudes de toda uma geração, que se reconhecia em figuras populares quase que eleitas para representá-las na telinha. Uma narrativa de país era construída no eixo Rio – São Paulo e se propagava por satélite com mais velocidade do que se poderiam construir rodovias. Não é à toa que o sistema brasileiro de televisão e publicidade nos anos 60 e 70 foi em grande parte financiado por recursos governamentais, este, por sua vez, apoiado pelos vizinhos do andar de cima estadunidense e seu projeto capitalista em plena Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, no mundo inteiro uma juventude começava a questionar valores morais da sociedade, cada qual em seu contexto particular: contra a guerra, contra o consumo, contra o sistema educativo, contra o regime militar. Naturalmente, os ventos revolucionários não demoraram a chegar no país, desflorando também suas contradições internas. E como nem a sociedade nem a juventude – e nem a arte – são tão simples a ponto de se limitarem a uma rivalidade entre engajados e alienados, foram estes encontros e desencontros territoriais e afetivos que construíram a narrativa deste período da nossa história. Mas todo conto fica mais atraente com mocinhos e vilões. Assim, passeatas, festivais e ismos foram registrados num imaginário coletivo, que embora já tantas vezes re-contado, sempre tem algo novo a revelar.

Mas e aí, a História parou?

Se a Tropicália foi naquele momento um grande catalisador de subjetividades em torno de uma recusa ao dualismo que colocava a MPB versus o iêiêiê, ela também contribuiu para a construção deste mesmo cenário. A televisão popular que permitia o diálogo com um público mais amplo centrava seus holofotes mais no “ismo”do que no “ália”. O tropical visto apenas como uma alternativa mais criativa e impactante, ofusca – até hoje – um questionamento mais profundo: como “desenquadrar” as formas de pensamento e compreensão da realidade, ontem, hoje e sempre, em, seus contextos culturais, políticos e econômicos específicos?

Isso não significa de alguma maneira buscar novos heróis tropicalistas para nos salvar da caretice habitual. Muito pelo contrário. Se bem entendemos as entrelinhas, a questão é: quais são as margarinas, Carolinas e gasolinas das quais precisamos saber, e quais prateleiras, estantes e vidraças que devem ser derrubadas hoje?

Aquele país que se dizia do futuro já chegou no presente, e está construindo a pleno vapor o futuro, que está batendo à porta. Mas hoje a ditadura mudou de ditador, a crise mostra que dez anos depois uma nova globalização não apenas é possível mas necessária e os novos heróis do imaginário popular estão mais no Youtube que na televisão.

E se a Tropicália já ganhou estantes da mesma elite que ela criticava, é preciso ressignificá-la. Ou melhor, inventar outra. Ou qualquer outra coisa. Tanto faz. Como Guattari dizia, o grande interesse é ter um “ponto de encontro de novas subjetividades”, em torno de uma motivação comum.

Assim, quando falamos de “Tropifagia” é no sentido de resgatar o “tropical” que há dentro das mais diversas manifestações da cultura brasileira, uma brincadeira ‘semântico-linguística’ que significa comer (fagia) os trópicos, ou o país tropical (tropi). Se antropofagia oswaldiana propunha comer o homem exterior em busca de uma re-significação da identidade cultural brasileira, a empreitada tropicalista tratou de proporcionar empiricamente o encontro de referências nacionais e estrangeiras, e a trupe do Maguebeat misturou as raízes do mangue com as tecnologias do beat internacional num mesmo prato tropical e original.

A proposta da Tropifagia é então voltar os olhares ao país tropical já hibridizado, já saboreado lá fora, e redescobrir um Brasil múltiplo, diverso, e muitas vezes, mesmo contraditório. Os Pontos de Cultura, por exemplo, deram este importantíssimo passo de “desvendar o Brasil debaixo pra cima”, e agora este mesmo Brasil se reencontra de forma protagonista, autônoma e empoderada e se mobilizando em rede(s).

Tropifagia é uma estética, um exercício, eu diria até uma “metodologia”, pra soar bonito. Os chatos de plantão vão dizer que é mais uma moda da juventude burguesa folclórica. E pode ser mesmo. Se for para explorar a subjetividade artística de cada indivíduo envolvido, tendo o processo como mais importante do que o produto, podem chamar do que quiser. Eu apenas acho que “é proibido proibir”.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 23/11/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: