Quem (não) me representa?

Por Ana Lucia Enne, membro do Conselho Editorial e colunista da Revista Vírus Planetário

Março de 2013 reservou-nos uma ingrata surpresa. O pastor Marcos Feliciano, deputado federal pelo PSC-SP, foi indicado para assumir a importantíssima e estratégica presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Feliciano é pródigo em declarações polêmicas, de cunho homofóbico, sexista, racista e de perseguição religiosa, se tornando nacionalmente conhecido por frases como: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado de Noé. Isso é fato”; “A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, a rejeição” (sic); “É a última vez que eu falo. Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale. Depois vai pedir o milagre para Deus e Deus não vai dar”; “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada”;  “Eu queria estar lá no dia que descobriram o corpo dele. Ia tirar o pano de cima e dizer: ‘Me perdoe John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai, esse é em nome do Filho e esse em nome do Espírito Santo’” (sobre a morte de John Lennon); “Ao invés de virar pra um lado, o manche tocou pra outro. Um anjo pôs o dedo no manche e Deus fulminou aqueles que tentaram colocar palavras torpes na boca das nossas crianças” (sobre a morte dos integrantes do conjunto Mamonas Assassinas); dentre outras pérolas disparadas em seu perfil no twitter, em passagens de livros, em vídeos, em entrevistas. Convenhamos, é tanto aviltamento, disparate, preconceito, afirmação criminosa (porque, sim, racismo é crime no Brasil, inafiançável), que custamos mesmo a acreditar que a entrega da presidência da Comissão de Direitos Humanos a uma pessoa desse calibre não seria só uma espécie de “pegadinha”. Mas não é.

Para lidar com o choque por essa indicação ofensiva e inacreditável, parte significativa dos brasileiros, através dos mais diversos movimentos e ações sociais, individuais ou coletivas, criou uma forma de manifestação pública, batizada de “Feliciano não me representa”, indicando, através de múltiplas formas de expressão, sua não identificação com os valores e práticas do pastor Feliciano.

webvalesca

Ilustração de Inês Emery

Sabemos que representar é tornar presente, através de uso de significantes, um ausente. Toda representação, semiologicamente falando, é uma tentativa de colocar no lugar de um ausente algo que o represente, que fale por ele, que o sintetize, que o substitua. Também sabemos que uma representação, por maior que seja seu esforço de síntese e mimese, por mais que lance mão de efeitos de real, por mais que se espelhe e ancore naquilo que busca representar, jamais dará conta de substituir de fato o ausente. Toda representação é, assim, uma incompletude, uma ilusão, uma apropriação parcial e possível de uma ausência. No entanto, como já dissemos acima, uma representação é um jogo de relações entre o presente e o ausente. É preciso lançar mão de diversos recursos para que acreditemos que no lugar do ausente aquele/aquilo que nos representa faça sentido, nos pareça real, nos pareça coerente com aquilo/aquele que representa. No caso da representação instituída, em que alguém a quem delegamos um papel fala por nós, como um síndico, um representante de turma, um orador ou um político eleito, acreditamos que ele irá cumprir essa delegação porque o colocamos ali porque ele nos sintetiza, é capaz de falar por nós porque nos identificamos com seus valores e práticas, porque confiamos em seu lugar moral, reconhecemos sua autoridade e sua legitimidade de falar por nós, mesmo sabendo que será impossível que o representante fale por todos, consiga agradar e sintetizar todas as visões de mundo, seja sempre retilíneo e não contraditório. Ainda assim, esperamos daquele que nos representa a partir de nossas escolhas que ele seja coerente, que nos substitua, seja a presença em nossa ausência, que ocupe o lugar moral que acreditamos que ele tenha, por isso o instituímos nosso representante.

Quando parte significativa de um país adere a um movimento que acusa o pastor Marco Feliciano de não representação, o que esse brado está dizendo é: não reconhecemos seu lugar moral, sua autoridade e sua legitimidade para falar por nós; não nos identificamos com seus valores e visões de mundo; não aceitamos a sua instituição para nos substituir. Acho que independentemente do resultado desse movimento contestatório, já podemos comemorar uma vitória: que bom ver tanta gente dizendo que não concorda com os valores de Feliciano, seu ódio à diferença, ao outro, à humanidade. Que bom percebermos que muitos não querem o embaralhamento da razão política pela emoção religiosa, que se busca o Estado laico para todos, fazendo valer o ideal republicano e democrático. Neste sentido, é muito bom poder dizer: Feliciano não me representa. É maravilhoso ver o que esta frase carrega de sentidos e posições políticas para o mundo.

Ao mesmo tempo, participei, recentemente, de episódio também muito interessante de conflito representacional. Sou professora do curso de Estudos de Mídia, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em abril de 2013, uma turma de sete alunos me fez o feliz convite para ser paraninfa em sua formatura, o que aceitei com gosto, sempre me alegra muito quando os meus alunos querem que eu os represente. Nesta mesma formatura, os alunos escolheram para patronesse a funkeira Valesca Popozuda que, infelizmente, não pode comparecer, mas manifestou muita felicidade também com o convite. Adorei a ideia da turma. Em primeiro lugar, porque externaliza a vocação e a coragem do curso de Estudos de Mídia, de não se conformar com os paradigmas, de quebrar com as regras, de nos lembrar aquilo que Oswald de Andrade já havia dito belamente no Manifesto Pau Brasil: “só há determinismo onde não há mistério”. É preciso, então, abrir janelas, forjar outros olhares, confundir, hibridizar, blasfemar, para quebrar os determinismos, o senso comum, as verdades cristalizadas. Ainda citando Oswald, é preciso coragem para “ver com olhos livres”. E isso fizeram esses sete alunos: ousaram blasfemar, homenageando não só uma personalidade não acadêmica, mas do reino do pop, do polêmico e muitas vezes vilipendiado universo do funk; uma cantora que para alguns “banaliza o corpo feminino e contribui para a exploração da mulher”, enquanto para outros tematiza a questão da sexualidade feminina e coloca em cena discussões importantes para o feminismo; uma artista que para muitos representa o mundo da alienação, enquanto para outros tem se mostrado cidadã consciente apoiando causas de minorias, em especial a luta anti-homofobia. Ou seja, uma personagem não retilínea, contraditória, complexa, assim como a vida. Palmas para meus ousados alunos, que não se curvaram ao óbvio e se atreveram a homenagear alguém cujo comportamento e estilo artístico são alvos constantes do preconceito e da distinção de classe.

No entanto, não se toma uma atitude assim sem correr os riscos de suas consequências. Associar-se em um projeto de identidade a quem carrega as marcas do estigma, como os funkeiros, mesmo que aparentemente protegido pelas unções do sagrado (no caso, a marca do diploma acadêmico), muitas vezes faz com que as marcas do preconceito contaminem também o defensor. E isso, a meu ver, torna a luta ainda mais necessária, mais justa, mais bonita. Não temer a associação com as marcas do perigo, não se apegar às cômodas vestes da pureza. Luta bonita e dura, mas que vale tão a pena viver. Dito e feito! A homenagem causou espanto, virou matéria em muitos jornais, recebeu levas de comentários negativos dos leitores cínicos dos portais de notícias, como o Globo, que têm a cara de pau de acusar de “baixa cultura”, “falta de cultura”, ou qualquer um desses termos preconceituosos e ignorantes acerca da diversidade e polissemia da ideia de cultura, aquele que professa um gosto diferente do seu, se esquecendo, inclusive, que para boa parte da elite intelectual que lhe serve de referência para a aplicação do rótulo preconceituoso contra o funkeiro, também ele, leitor de O Globo, num passa de um alienado, inculto, uma grande de uma besta. Dando um tiro no próprio pé, os comentaristas dos portais apontaram suas armas contra Valesca, o funk, os formandos, a universidade, os professores, o curso e, pasmem!, Lula e a política de cotas.

Tudo isso me fez pensar em representação, na configuração do jogo presente x ausente, no reconhecimento do lugar moral daquele que, instituído, fala por mim, fala por você, fala por nós. Feliciano, por tudo que já foi dito, com certeza não me representa. Não tenho dúvidas entre quem escolheria, em termos de valores, para me representar, se Feliciano ou Valesca. Por isso, não tenho qualquer hesitação em afirmar, neste artigo, que Feliciano não me representa, os preconceituosos não me representam, os comentaristas dos portais com suas visões de mundo estreita e suas ridículas necessidades de distinção (sendo leitores de O Globo!, mas que grandes de umas bestas!, diria a inteligência ainda mais distinta!) também não me representam. Valesca Popozuda, o funk, as formas de resistência da cultura popular, seus embates, contradições, suas lutas e questões, sim, me representam. Mas me representam ainda mais os meus valorosos e corajosos alunos, que arriscam, não temem associar seus nomes ao lugar do preconceito, que sambam na cara da sociedade quando dizem que não se curvam aos dogmas e aos sacralizados, que estão aí pra fazer pensar e não para se submeter, que colocam pra dialogar o que aprendem em sala com o que vivenciam no mundo. Esses alunos, os formandos e todos aqueles que depois compraram a briga por eles, esses não só me representam, como me enchem de orgulho. Tamo junto e misturado, sempre!

 

Publicado originalmente: http://www.virusplanetario.net/quem-nao-me-representa/

Este artigo está na edição número 22 da revista que começa a ser vendida esta semana.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 22/04/2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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