Por uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária

De 17 a 22 de maio ocorreu na cidade de La Paz, na Bolívia, o 1° Congresso Latinoamericano Cultura Viva Comunitária. O encontro teve como objetivo articular redes na região em torno da campanha de 0,1% dos orçamentos nacionais para a chamada “Cultura Viva Comunitária” – ações artísticas e culturais que operem sob a lógica do protagonismo, da autonomia, do empoderamento e da interação com a comunidade.

Entre debates, oficinas e apresentações artísticas, uma das discussões realizadas na ocasião foi a criação de uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária. Entendendo que a cultura e a produção do conhecimento também estão para além dos muros da universidade, a rede faz parte de um dos principais encaminhamentos do Congresso. Assim, a proposta é articular instituições, metodologias e experiências de formação entre os países que operem sob os princípios da descentralização, da colaboração e da diversidade.

O encontro contou com um primeiro momento de apresentação e socialização das trajetórias pessoais e institucionais de cada um dos participantes com relação a cultura. O debate foi dividido em três eixos principais: a questão das universidades hoje na América Latina e sua interação com a comunidade, a relação entre universidade e Cultura Viva Comunitária; e a formação desta rede e suas possíveis características.

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 Os desafios da universidade hoje

 Uma das principais questões levantadas no debate é o reconhecimento do saber produzido fora do âmbito acadêmico. De uma maneira geral, a universidade não compreende dinâmicas pedagógicas e culturais não inseridas em seu sistema produtivo, baseado em títulos, publicações e pontuações. Mesmo o interesse acadêmico em tais culturas às vezes a limita ao lugar de objeto de estudo, permanecendo a distância hierárquica entre pesquisador e pesquisado. Neste sentido, foi levantado o crescente número de experiências de educação não formal hoje, com o objetivo de difundir outras formas de produção de conhecimento e propor novas metodologias de difusão de saberes.

No entanto, é ressaltado o papel da certificação acadêmica, que possui um valor simbólico para aqueles que historicamente tem visto seu acesso à universidade negado. Compreendendo o sistema universitário fundamentado no tripé ensino, pesquisa e extensão, este último se apresenta como fator fundamental na interação entre academia e comunidade. Desta forma, foi questionada a sua desvalorização nos sistemas de pontuação de alguns órgãos reguladores de educação, o que desestimula o investimento neste tipo de atividade.

Universidade e Cultura Viva Comunitária

Apostando na universidade como um lugar de produção crítica de conhecimento, se faz estratégico reconhecer a existência de saberes nos mais diversos espaços, em interação com a comunidade acadêmica. Para isso, as possibilidades de interação entre atores universitários e comunitários deve passar pela formação de gestores culturais que incorporem neste processo o acúmulo gerado por estas articulações já existentes. Neste sentido, foram apresentadas experiências que abordam este diálogo de saberes, como a função da extensão universitária, pesquisas relacionadas à diversidade cultural, projetos territoriais e de inclusão socio-cultural, e a formação de educadores nas línguas dos povos originários. Entre as experiências em desenvolvimento apresentadas, foi ressaltada a importância de formar gestores culturais comunitários, a investigação e sistematização das diferentes experiências e o fortalecimento das organizações culturais. Além disso, foi colocada em questão a necessidade das instituições promoverem instâncias de reflexão e produção junto a estas organizações culturais.

A recém-criada Unila – Universidade da Integração Latinoamericana é apontada como uma experiência pioneira neste sentido. Tendo cerca de 50% do seu corpo discente formado por estudantes brasileiros e cerca de 50% de países da América Latina, e em torno de 90% de estudantes bolsistas, a Unila tem como desafio trabalhar com cultura e com integração latino americana através da valorização trinacional das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina. Foi ressaltada ainda a necessidade de pensar a Unila como um lugar estratégico da articulação Cultura Viva Comunitária, sendo destacada a importância do comprometimento dos governos das regiões com o projeto.

Por uma Rede Latinoamericana de Universidades pela Cultura Viva Comunitária

Levando em consideração a diversidade dos agentes envolvidos e suas visões sobre a cultura, o desafio da proposta reside na estruturação das organizações da Cultura Viva Comunitária como uma rede efetiva de descolonização social e cultural na América Latina: de que forma as realidades desses países afetam forma pela qual os saberes são produzidos e compartilhados? Que autores latinoamericanos não encontram lugar na universidade hoje? Como lidar com a diversidade linguística na região? Quais são os parceiros estratégicos nesta articulação?

A criação desta rede, no entanto, deve observar as diferentes condições em cada instituição para tal, considerando inclusive que muitos representantes de outras universidades, interessados no debate, não puderam estar presentes no encontro. Neste sentido, a socialização das experiências e projetos em comum foram apontados como um importante começo. Assim, a interação da Cultura Viva Comunitária através de uma rede de universidades deve se dar a partir da observação dos recursos (materiais e simbólicos) disponíveis e das demandas existentes. Para tal, foram sugeridas duas estratégias complementares: por um lado, o mapeamento de recursos, pessoas, metodologias e conhecimentos que compõe essa diversidade e que possam vir a contribuir nesta articulação, e por outro, ações de formação do próprio corpo universitário na temática do Cultura Viva Comunitária, em busca do diálogo das práticas universitárias tradicionais com este conceito.

Para o primeiro ponto, foi sugerido o mapeamento já iniciado da Universidade das Culturas (Unicult), uma rede de pesquisadores, grupos, coletivos, universidades, pontos de cultura e agentes culturais cujo objetivo é articular projetos no campo da formação cultural. Através dos recursos tecnológicos disponíveis hoje, a Unicult busca criar espaços de convergência entre instituições e agentes culturais, conectando as diversas metodologias de formação, tradicionais ou inovadoras, e criando campos de disputa de conceitos, valores e ideias, para além da rigidez das instituições e modelos acadêmicos. Disponível no link http://va.mu/cRRr, o formulário convida o público a se apresentar como “Corpo Docente” – indivíduos detentores dos mais diversos saberes e práticas – ou “Campus” – organizações e espaços de produção de conhecimento que podem ser permanentes (espaços fixos ou atividades contínuas) ou temporários (evento ou ação pontual). Além de informações básicas como contatos e links, o formulário busca incentivar a reflexão sobre o trabalho apresentado, contribuindo na sistematização de narrativas, metodologias, recursos e demandas.

Na segunda questão, foi proposta a realização de um seminário entre universidades latinoamericanas, com o objetivo de reunir e compartilhar conhecimento teórico e empiríco sobre o Cultura Viva Comunitária. Na ocasião, serão apresentadas as experiências e atividades já realizadas pela Plataforma Puente e durante o 1° Congresso Latinoamericano Cultura Viva Comunitária, além do debate conceitual sobre os eixos fundadores desta política cultural. Pensando a relação entre linguagem, política e poder nesta disputa simbólica na Latinoamérica, o seminário irá discutir as narrativas, estéticas e potencialidades desta articulação em rede. O evento, ainda sem local definido, está sendo pensado para o primeiro semestre de 2014, e deverá ser debatido e articulado ao longo deste ano de 2013.

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Além disso, a sistematização de uma agenda de eventos acadêmicos já existentes é um importante passo para a inclusão da reflexão sobre o Cultura Viva Comunitária nas redes de universidade já existentes, em vistas da consolidação de uma rede de apoio e colaboração entre universidades e estas organizações. A saber:

Junho

06, 07 e 08: Encontro Unicult: Cultura Viva e Comunitária (UFRJ, Brasil)

Julho

03, 04, 05: reunião da Plataforma JUNTOS (Guatemala)

Setembro

01: Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cultura (USP, Brasil)

Novembro

06, 07 e 08: Encontro de Interculturalidades da Unila (Foz do Iguaçu, Brasil)

– Encontro Global de Redes – Emergencia (São Paulo, Brasil)

Dezembro

– Caravana Cultura em los Barios e Reunião do comitê Gestor CVC (Buenos Aires, Argentina)

– Festival Nuestra America (Curitiba, Brasil)

– Lab sur Lab (Cochabamba, Bolívia)

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 06/06/2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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