Alguma coisa está fora da ordem

Derrubar as prateleiras. As vidraças. As estantes, louças, livros, sim. Eu digo não. Eu digo não ao não. Eu digo É PROIBIDO PROIBIR...”  (1968)

Ocupação do Congresso Nacional, na última segunda-feira (17) em Brasília. Foto: Mídia Ninja

Enquanto a poeira baixa, sigo acompanhando os diversos relatos do desenrolar da última semana e tentando assimilar um pouco do que está acontecendo. Ainda há muito a refletir e debater, mas como uma blogueira com ascendente em Aquário não me contive de lançar alguns palpites.

Pessoas que tradicionalmente não participam de protestos saindo às ruas, as timelines não sabem falar de outra coisa e até a Rede Globo proclamou estado de exceção em sua estimada programação para exibir (muito parcialmente) as manifestações. Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

A luta por políticas públicas de qualidade no país não é de hoje. No entanto, o “gigante” que tomou as ruas desde o início da semana teve início com a reivindicação contra o aumento das passagens. Mas, vale lembrar, ele nunca se limitou a isso. Tanto nas preliminares nas redes sociais quanto nos cartazes nas ruas, eram denunciados os gastos excessivos na Copa do Mundo frente a falta de investimentos na Saúde, Educação, Segurança Pública, Moradia, etc; a truculência e arrogância dos governos de Paes e Cabral no Rio de Janeiro e a limpeza social da cidade; a falta de representatividade dos meios de comunicação de massa; a impunidade e a corrupção. No meio de tudo isso, a sensação de “manifestar pelo direito de manifestar”, por mais vaga que seja, de uma juventude em grande parte acostumada a apenas ouvir falar de históricas manifestações nas ruas – inclusive dos seus contemporâneos egípsios, tunisianos, espanhóis, gregos, turcos. Engolindo goela abaixo que “o brasileiro é acomodado”.

A geração da petição online, que vive a integração do digital e do analógico, e que hoje se sente até meio perdida quando acaba a bateria do celular ou a conexão de internet – e eu me incluo nesses. Em Brasília vi um cartaz que dizia “colocaram Mentos na Geração Coca Cola” (em referência a um video na internet onde se mostra o efeito explosivo da bala dentro do refrigente). Sorri. Esse parece ser o cenário. Estavam (quase) todos lá, vestidos pra guerra – torcendo pra que ela não acontecesse-, prontos pra manifestar e postar suas fotos no Facebook.

Mas limitar a análise do movimento à falta de pauta ou estratégia dos ali presentes é esvaziar uma questão muito mais complexa.

Do ponto de vista da subjetividade, uma mudança muito significativa levou aqueles milhares às ruas na segunda-feira dia 17/06: a sensação de estar fazendo parte de uma ação coletiva, de lotar da Rio Branco à Cinelândia fora do Carnaval, sentir a adrenalina de contestar a ordem estabelecida, e até poder correr de um gás lacrimogênio aqui ou ali compartilhando vinagre com desconhecidos à volta. Voltamos pra casa com a sensação de dever cumprido, com um gosto de quero mais, e com energia pra avançar no debate conceitual.

Mas aí veio a quinta-feira, 20/06. Se na segunda a polícia deu o gostinho de vitória intervindo timidamente, se for levado em consideração sua usual truculência, na quinta-feira pareciam dar um recado bem claro: “Não vamos tolerar que nenhum de vocês manchem o lindo projeto de cidade que estamos vendendo. É guerra, e temos a mídia do nosso lado”. Violência exagerada para cima dos manifestantes enquanto a tv insistia que era “uma minoria de vândalos e baderneiros”, o que, por sua vez, justifica a intervenção da polícia.

Entretanto, o que preocupa ainda está mais embaixo do pano. Ou melhor, das máscaras e capuzes: o “apartidarismo” – o movimento não seria liderado por nenhum partido político específico – sendo confundido com “antipartidarismo” – a rechaça à simples presença de partidos, seus militantes e bandeiras nos atos. Relatos contam que na manifestações de ontem as agressões físicas e verbais se dirigiam a praticamente qualquer pessoa identificada como de esquerda, e muitos saíram feridos. Isso é preocupante pelo simples fato de que não se deve proibir um direto – o da organização partidária -, duramente conquistado na nossa tão recente democracia.  E a história já nos mostrou onde essa reação nacionalista pode chegar. Por outro lado, a visível maioria de manifestantes sem partidos, que não se sentem representados pelos que aí estão, ou pela própria lógica partidária, levanta o debate sobre as formas e possibilidades de organização política. E isso se chama Reforma Política: garantir a representatividade e participação institucional de cidadãos para além da dinâmica engessada de partidos e seus comitês centrais, rever o sistema eleitoral e a política de financiamento das campanhas, e garantir mecanismos de gestão participativa para além de quatro em quatro anos.

Li muita coisa sobre a orquestração de um possível golpe de direita. Faz todo o sentido: discurso anti corrupção claramente voltado contra o Governo Federal, intimidação de partidos, caras pintadas, hino nacional e apoio da mídia (coincidentemente, da mesma Rede Globo que apoiou a ditadura militar e neoliberalismo econômico). No entanto, como bem coloca a professora Marília (num dos textos mais comentados na internet sobre o assunto): “em toda e qualquer tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a resposta popular ao ataque. Em 1964, a resposta popular foi o apoio e passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a democracia foi restabelecida”.

Não priemos cânico. Propagar a ideia de caos social apenas ajuda a reforçar a necessidade de um “salvador da pátria” que trará soluções para todos os seus problemas, escondendo atrás da cortina de fumaça seu passado político. E no ano que vem, por entre vuvuzelas e bandeirinhas, surge nas urnas o herói amarelo e azul.

Pra piorar a situação, o governo tem demonstrado total inabilidade de lidar com isso. Por arrogância ou ignorância, não tem conseguido dialogar efetivamente com o povo, que deveria ser a base de um governo de esquerda. A presidente Dilma fez um primeiro pronunciamento oficial à nação na sexta-feira, 21 de junho, em horário nobre. Tentando agradar a gregos e troianos, anunciou uma agenda política importante, que cabe agora ser cobrada, mas escorregou no discurso anti vandalismo e de preservação da ordem social – logo ela.

Sobre isso, publiquei no dia:

“Senhora Presidenta, muito bonito a senhora vir a público “dialogar” com o povo brasileiro, agradecemos a atenção.
Pedimos apenas cuidado ao categorizar as respostas à violência (policial, midiática, econômica, social) nossa de cada dia como simples vandalismo.
O que a senhora quer dizer quando afirma que democracia só se conquista com paz e ordem? A senhora certamente sempre esteve ao lado da lei para lutar por este estado democrático que tanto afirma defender, não é mesmo?
Em todo caso, tá anotado: Sistema Nacional de Mobilidade Urbana, 100% dos royalities do Pré Sal pra educação, médicos já pro SUS e Reforma Politica (sim, ela!)… tá gravado viu.
Não queremos sua saída, presidenta (até porque muito pior está na espreita para vir). Queremos apenas que faça valer os votos que colocaram a faixa presidencial nos ombros da primeira mulher, que faça valer a história e os valores da esquerda brasileira, que faça valer a voz de milhares de brasileiras e brasileiros que acreditam que um país melhor é possível.
Um beijo com todo o carinho que recebemos ontem nas ruas, e com o qual vamos retribuir nossos hóspedes, pra senhora também. Boa noite.”

Mas esse gargalo político entre governos e a população se deve, inclusive, pela falta de instrumentos de maior participação popular. A atuação dos partidos de esquerda tem sido fundamental para a construção da política econômica e social dos últimos dez anos, que, de fato, trouxe importantes mudanças. Mas a crescente resistência ao sistema partidário como a única via de participação democrática – não apenas nestas semanas, mas nos últimos anos e movimentos -, deve ser vista também como um alerta para a reivenção das formas de fazer política.

Assim sendo, três coisas me parecem importantes:

1) O estabelecimento de fóruns populares de tomada de decisão e, principalmente, de debate sobre os rumos das manifestações. A falta de informação leva ao esvaziamento conceitual dos protestos, e quando não se sabe para onde ir o vento à direita pode ser mais forte. A criação de assembléias populares, ocupando permanentemente espaços públicos como praças e universidades, permite ampliar o debate para além do círculo de amigos e experimentar na prática o que significa redes sociais. Como já vivenciado durante o acampamento OcupeRio na praça da Cinelândia em 2011, o encontro de grupos com diferentes condições sociais e estratégias políticas revela a não unanimidade do movimento, mas pode ser usado a favor de uma democracia mais diversificada. Se o que se exige é a participação popular nos processos de tomada de decisão, que comecemos propondo alguns modelos possíveis.

2) Isso me leva a crer que necessitamos de uma estratégia de comunicação eficiente, que dê conta das diversas narrativas criadas, de forma transversal. Cada cidade e movimento tem suas prioridades e dinâmicas específicas. Por isso, a circulação da informação deve visar a interação de subjetividades e uma organização mais consistente de movimento. A criação de perfis nas redes sociais para difundir os debates, bem como um sistema eficiente de compartilhamento de dados e redes nestes espaços, são alguns dos pontos que vão ajudar na afirmação do caráter popular do movimento, e dificultar a atuação de grupos totalitários.

3) Para tal, temos à disposição uma série de dispositivos que facilitam, e muito, a nossa vida: eventos criados no Facebook discutem as pautas e os locais de encontro, grupos conectados por WhatsUp trocam informações em tempo real sobre o que acontece, smartphones registram imagens confusas pela baixa qualidade e pela emoção do momento. Mas o uso de tecnologias corporativistas já se mostrou limitada e mesmo arriscada, uma vez que não se tem o controle final dos conteúdos ciruclados, entregando de bandeja informações estratégicas e dados pessoais para governos e órgãos de controle. Sendo a falta de eficiência a grande defasagem das tecnologias livres hoje, o desenvolvimento de redes livres de compartilhamento irá não apenas beneficiar a organização estratégica deste movimento quanto mostrar na prática a possibilidade de outros modelos comunicativos, sociais, e, em última instância, políticos.

De uma forma geral, a minha sensação nas ruas é de uma energia muito potente, mas que ainda precisa ser canalizada em direções mais produtivas do que gritos de ordem esvaziados e repetidos a esmo. Mas afinal, qual é a reivindicação do movimento que está tomando as ruas do Brasil? Valor justo do preço das passagens, fim da repressão policial, investimentos da Copa e Olimpíada para Saúde e Educação… Mas também gestão democrática e participativa, direito à comunicação e neutralidade da internet, preservação real do meio ambiente, garantia dos direitos e terras indígenas e griôs, dados governamentais abertos, direito de expressar sua sexualidade, contra a privatização dos espaços públicos, a especulação imobiliária e as remoções. A pluralidade das bandeiras é proporcional à insatisfação mais ou menos represada em um povo cuja diversidade cultural, social e política é tão grande quanto seu próprio território.

O Brasil está respondendo ao chamado levantado pela Primavera Árabe, o movimento dos Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, o YoSoy123 mexicano, Occupy Gezi em Istambul. Em nosso jeitinho brasileiro e antropofágico, seguimos nas redes e nas ruas para ver onde isso vai dar.

* Agradeço aos excelentes textos, videos e conversas que tive acesso nos últimos, que me ajudaram a rascunhar essa análise.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 21/06/2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. “A pluralidade das bandeiras é proporcional à insatisfação mais ou menos represada em um povo cuja diversidade cultural, social e política é tão grande quanto seu próprio território.” Belíssimo texto. Ao contrário do que quer o discurso que esvazia: sim, milhares de pessoas, diferentes reivindicações. É o melhor que se poderia querer. Resta-nos agora, pelo menos a mim, não descuidar de olhar para o que discute no congresso por tanto tempo.

  2. super bien écrit. Une vision très intéressante que je partage. Seb

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