O 8 de março, a luta das mulheres e um novo mundo possível

“Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede” 

Por Bianca Rihan∗

 

Neste dia, explorado pelo mercado através de flores e bombons, saímos às ruas por mais direitos, contra a violência, mas, sobretudo, pela desconstrução das referências que relegam as mulheres à posição de propriedade. Nossa luta é pela quebra das referências estigmatizadas de masculino e feminino, pelo fim da cultura da opressão e da exploração, pela desmercantilização de nossas vidas.

Ainda em 1791, no desenrolar da Revolução Francesa (1789), Olympe de Gourges lançava a “Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã”, denunciando a limitação da “Declaração dos Direitos do Homem”, e reivindicando a participação feminina nos espaços políticos, o fim da prostituição, e a igualdade de direitos entre os sexos. Em meio àquele cenário de ebulição, Gourges pautava o “direito feminino a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo suas capacidades” , pois “se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve poder subir também à tribuna.” Assim, chamava a atenção para a necessidade de reconhecimento de ativas participantes das lutas sociais que, contraditoriamente, viam seus direitos limitados no momento em que se alardeava o nascimento da “democracia” contemporânea:

“Diga-me, quem te deu o direito soberano de oprimir o meu sexo? (…) Ele quer comandar como déspota sobre um sexo que recebeu todas as faculdades intelectuais. (…) Esta Revolução só se realizará quando todas as mulheres tiverem consciência de seu destino deplorável e dos direitos que elas perderam na sociedade”. Muitas dessas mulheres chegaram a participar dos conflitos armados contra a monarquia absolutista, além de ocuparem todos os espaços de construção revolucionária, fazendo política em lugares até então dominados por homens e criando, inclusive, algumas organizações próprias como o “clube das tecelãs”. 

Acontece que boa parte das engrenagens dessa nova sociedade permaneceu antiga, os dominados de antes se tornaram dominantes, submetendo outros dominados. As mulheres continuaram a ser tratadas como sujeitos sem razão, e os desmandos de um governo que reivindicava os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” foram responsáveis por assassinar inúmeras delas, inclusive Olympe de Gouges, guilhotinada em 3 de março de 1793 por “querer ser um homem de estado e ter esquecido as virtudes próprias do seu sexo”.  O fim do século XVIII e o início do XIX trouxeram transformações significativas no processo produtivo mundial, acarretando a Revolução Industrial e a consolidação do sistema capitalista. O trabalho feminino foi incorporado nas fábricas com salários aproximadamente 60% menores que os dos homens, jornadas de trabalho inseguras e insalubres, que chegavam a 17 horas diárias, além da recorrência de espancamentos e ameaças sexuais. Manifestações para denunciar as insustentáveis relações começaram a explodir.

A ebulição do XIX é tão marcante para o avanço da luta das mulheres , que a memória social a relaciona diretamente com a origem do Dia Internacional da Mulher. A versão mais conhecida sobre a criação simbólica do 8 de março remonta uma greve iniciada por operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque, no ano de 1857, que solicitava a redução das jornadas, salário igual para trabalho igual, e o fim dos abusos no ambiente de trabalho. Patrões e policiais teriam trancado as manifestantes na fábrica e posto fogo em suas dependências, matando asfixiadas e carbonizadas mais ou menos 130 trabalhadoras.

Porém, pesquisas mais recentes sobre o movimento feminista contestam essa versão, afirmando que a origem do 8 de março, apesar de amalgamar um grandioso panorama de lutas, está diretamente relacionado à militância das mulheres no interior do movimento socialista. Ana Isabel Álvarez Gonzales, autora do livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres” entrecruza uma série de fontes esclarecendo a “mitologia” das versões que relegaram ao esquecimento as feministas socialistas. Segundo Gonzales, foi em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário ortodoxo), no processo da I Guerra Mundial, e de desencadeamento da Revolução Russa, que cerca de 90 mil operárias russas se organizaram contra a exploração imposta no trabalho, a fome, e a participação de seu país na guerra, liderando uma manifestação batizada de “pão e paz”.

A repercussão internacional do 8 de março, segundo Gonzales, também não teria sido firmada em 1910, como costuma apontar o senso comum. Nesse ano, Clara Zetkin sugeriu, de fato, a unificação de uma data para lembrar e reafirmar a luta das mulheres, durante a Conferência das Mulheres Socialistas em Copenhague. Porém, nos documentos sobre a conferência não há menções sobre nenhuma resolução do dia específico. Segundo a autora, a adoção do 8 de março se deu apenas em 1921, em outra conferência, a das mulheres comunistas, realizada em Moscou. Sua reivindicação passou a ser impulsionada pela recém criada 3ª Internacional, relembrando o ato das socialistas russas, e realçando a necessidade da manifestação de mulheres contra explorações de todos os tipos.

Apesar do longo histórico de luta das mulheres, em pleno século XXI continuamos agredidas pelo machismo e pelo capitalismo. As soluções forjadas por tal sistema de exploração apontam, cada vez mais, para a saciedade do mercado, que tem sua engrenagem na conivência de Estados opressores, e em ataques diretos à vida das mulheres. Seja através da exploração dos nossos corpos, da prostituição e da violência contra nós, do controle sobre nossa sexualidade, da invisibilidade de nossa dupla jornada de trabalho, dos limites a nossa autonomia, ou da negação de nossos direitos sociais.

Nos últimos meses, em que acompanhamos a onda dos megaeventos invadir o Brasil, temos nos preocupado com o aumento da exploração de meninas e mulheres em todo o território nacional. Apesar dos investimentos e oportunidades possíveis de serem gerados durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, dia após dia, nos deparamos com vários de seus efeitos negativos. Na contramão das melhorias para a população brasileira, milhares de pessoas estão sendo despejadas de suas casas para que sejam atendidos os interesses do capital, leia-se empreiteiras, empresários e cafetões. A realidade é ainda mais dura quando se trata de mulheres pobres e negras, as mais afetadas pelas remoções e maiores vítimas da exploração sexual e tráfico de pessoas.

A previsão para o aumento do número de turistas no Brasil durante a Copa do Mundo calcula um salto de 5,5 milhões para aproximadamente 7,2 milhões . Os empresários da indústria sexual, por sua vez, começaram a se movimentar cedo, lançando pacotes promocionais com a inclusão de exploração sexual de mulheres e meninas, tratadas como propriedade, comercializadas como mercadoria.

Em 2012 um site intitulado “Garota Copa Pantanal 2014” foi tirado do ar por postar fotos de meninas menores de idade em posições sensuais e com camisas promocionais do campeonato. O site passou a ser investigado devido a suspeita de “agenciar” a iniciação de adolescentes na indústria sexual.  Nos canteiros de obra dos estádios já nota-se o aumento da prostituição de mulheres, adolescentes e crianças. No ano passado, o Jornal inglês Mirror publicou uma matéria mostrando a enorme incidência de meninas exploradas sexualmente nas proximidades do Itaquerão, em São Paulo.  

Em tempos de grandes eventos observamos, ainda, um aumento das recorrentes agressões às mulheres nos meios de comunicação e campanhas publicitárias. No mês passado, diversas organizações feministas lançaram nas redes sociais uma campanha de repúdio à marca Adidas, que confeccionou camisetas comemorativas da Copa no Brasil com os desenhos de um bumbum com fio dental e de uma mulher de biquíni. Ou seja, além da violência física, sofremos também com a violência simbólica, em que as ideologias dominantes – representadas pelos sistemas simbólicos – se transformam em funções políticas para submeter a ordenação do mundo a interesses específicos. Como dispositivo de poder, a mídia atua para garantir a hegemonia estrutural das classes dominantes e a reprodução da ideologia machista, racista e homofóbica inerente ao capitalismo. Assim, os estereótipos que relegam as mulheres a posições objetificadas, seja nas campanhas publicitárias, nos comerciais de cerveja, ou em novelas, invadem nossas casas todos os dias, apresentando como natural algo que é imposto. Estamos nas ruas para denunciar essa lógica, cobrar do Estado políticas públicas de combate à exploração sexual e a democratização dos meios de comunicação.

Na levada das jornadas de junho, apontamos também para a necessidade de um plebiscito popular como oportunidade de promover reformas estruturantes na organização de poder no Brasil, questionar o caráter patriarcal do Estado, aumentar a bancada feminina no Congresso e garantir nossas demandas. Segundo dados do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), dos nossos 594 parlamentares – 513 deputados e 81 senadores – 273 são empresários, 160 da bancada ruralista, 66 compõem a bancada evangélica e apenas 91 são representantes de trabalhadoras e trabalhadores da bancada sindical. Além disso, do universo de 594 parlamentares, somente 55 são mulheres. Para que o interesse público sobreponha o privado, a democracia se aperfeiçoe, e a maior participação da população na política seja garantida, é preciso o empenho no debate sobre uma Reforma Política capaz de desafiar os interesses econômicos, mantenedores das relações promíscuas entre empresários e políticos, e a sub-representação de gênero e de raça no Congresso Nacional. Nosso grito é pelo financiamento público de campanha e pelo voto em lista fechada com alternância entre homens e mulheres, aumentando a presença de mulheres no parlamento e colocando as disputas eleitorais em torno de projetos, e não de indivíduos.

Diante das investida da sociedade capitalista e patriarcal em nos domesticar, reafirmamos a luta das mulheres pelo direito de decidir sobre a própria sexualidade, e pelo fim de todos os tipos de violência que sofremos. A todos os perpetradores a aplicação da Lei Maria da Penha. Para que parem as mortes e sequelas causadas por abortos inseguros e clandestinos, entendemos a prioridade de fortalecimento do SUS e a descriminalização e legalização do aborto.

Conforme a célebre frase de Rosa Luxemburgo que intitula este artigo: “Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”. Estamos nas ruas por outro mundo possível! Viva o 8 de março e a luta das mulheres!

 

Bianca Rihan é feminista, socialista, flamenguista e mestranda em história social pela Universidade Federal Fluminense.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/03/2014, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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