Nas sutilezas

(Aproveito este 8 de março para compartilhar o relato que me foi enviado por email por uma leitora deste blog sobre o assédio que sofreu em uma sessão de fotos. Não a conheço pessoalmente mas a história muito me tocou e acredito que merece ser compartilhada. Vale a reflexão, mulheres!)

La sutileza – Raquel Oliveras Rodriguez

“Não posso deixar passar, definitivamente. Tomei essa decisão por mim, por todas que passaram por situações similares ou mais diretas nesse projeto, por todas as mulheres que passam por isso todos os dias, pelas gerações que se calaram/foram caladas, pelas gerações que estão chegando e pelas que estão por vir. Que as nossas meninas de hoje sejam mulheres cada vez mais livres e respeitadas. E que os meninos de hoje se tornem homens respeitosos e cuidadosos. Mais humanos.

A verdade é que ficha demorou a cair.

Ele me olhava minuciosamente enquanto eu me despia. Me senti desconfortável, mas imediatamente concluí que EU que estava nervosa com aquela situação de fazer sessão de fotos nua, que eu mesma escolhi para mim. Isso era um problema meu.

A sessão começou. Quando ele começou a me mostrar as primeiras fotos tiradas, já não curti. Percebi o quão estava desgostosa com o meu corpo e aquela situação toda começou a se tornar insuportável e constrangedora para mim. Ele, então, sugeriu que eu sentasse, para tentarmos fazer novas fotos em que eu pudesse me sentir melhor. Foi uma boa alternativa, comecei a conseguir esconder o que me incomodava. Ainda assim, aqueles minutos pareciam horas infindáveis. O que mesmo eu estava fazendo ali, meu Deus? Fui me sentindo muito exposta e vulnerável. Eu estava desconfortável, comecei a sentir um choro vindo. Dada essa minha condição, ele levantou da cadeira, sentou no chão comigo e me abraçou. Eu, nua, por dentro e por fora. Ele, o “fotógrafo-psicólogo”, tentando cuidar da mulher com baixa autoestima. Entre abraços e olhares profundos, elogiou meus peitos fartos algumas vezes, colocou as mãos na frente do próprio corpo, na altura dos próprios peitos, fazendo movimentos no ar como se estivesse mexendo em seios, e falava coisas como “esses peitos enormes, lindos, você é linda, para com isso”. Disse também que é claro que se não fosse casado ficaria comigo. Disse também que os amigos dele brincavam com ele que ele estava fazendo esse projeto para ver mulher pelada e que ele dizia que se fosse para isso não teria homens no projeto…

Ele não levantava a minha autoestima com tantos elogios e abraços e eu disse isso pra ele. Agradeci, inclusive, a tentativa, mas que não estava adiantando. Fizemos mais algumas fotos, depois eu disse que não estava mais conseguindo e terminamos. Ele até sugeriu que eu voltasse e refizesse a sessão em algum momento em que eu estivesse melhor comigo. Achei gentil e cuidadoso da parte dele.

Saímos bem de lá, fomos fazer um lanche, falamos do projeto, me ofereci para ajudar a escrevê-lo, a tentar editais, sugeri crowdfunding. Ainda escrevi pra ele depois reforçando a minha oferta em ajudar com o projeto.

Ainda fui chamada uma vez por uma menina na rua, que tinha me visto em um dos vídeos das entrevistas que ele fez, querendo saber a minha opinião, como tinha sido, porque ela tinha sido convidada e estava em dúvida. Eu contei da minha questão com o meu corpo, em como foi difícil para mim, mas a incentivei a fazer. Incentivei uma outra amiga também.

Até que um dia, José*, um amigo, veio me perguntar como tinha sido essa sessão de fotos, porque uma amiga dele, Ana*, tinha feito e relatou para ele que o tal fotógrafo tinha tentado beijá-la durante a sessão dela. Algo inexplicável aconteceu dentro de mim nessa hora. Foi a sensação de mil fichas caindo na minha cabeça, fui lembrando de tudo o que aconteceu naquela tarde, por toda a responsabilidade que eu trouxe para mim pelo que aconteceu ali.

José* pediu para eu não falar nada para ninguém, porque Ana* tinha pedido isso para ele. Respeitei e mantive o silêncio. Mas tudo isso ficou muito vivo em mim. Poucos meses depois, talvez dois, uma outra amiga, que não fez as fotos, veio me contar que uma amiga nossa em comum tinha vivido uma história dele ter tentado beijá-la na sessão de fotos. E não era Ana*, que José* tinha relatado. Calma aí, mais uma?

Bem, nisso tudo, já somos cinco, que eu saiba. Cinco que ficamos caladas. Mais cinco histórias para os autos dos casos que não entram em estatísticas. Mais cinco, dentre outras, que podem ter vivido esse tipo de situação nesse projeto. E de mulheres que passam por isso todos os dias e simplesmente não percebem, não trazem à luz da consciência o que de fato aconteceu/está acontecendo.

O maior aprendizado para mim nessa história, que quero trazer à tona, é o fato de que sim, estamos à mercê desse tipo de situação a qualquer momento. E não só à mercê, estamos vivendo a qualquer momento. Mesmo nós que nos sentimos tão donas de nós, dos nossos direitos, da nossa liberdade, da nossa luta, que achamos que já entendemos tudo. Mais do que vítima dele, me sinto vítima dessa questão histórica que nós mulheres carregamos incrustadas nos nossos corpos. O assédio vai desde o que nos parece óbvio, como um cara que passa a mão, estupra, fala um “gostosa” na rua, ou lança um olhar que engole, que nós mulheres sabemos bem como é. O assédio, mulheres, pode vir assim: travestido. De bom moço querendo apenas cuidar da moça frágil e vulnerável. Pode ser sutil e perverso, ao mesmo tempo.

Suas fichas, mulheres, podem estar caindo só agora, lendo esse texto. Isso aconteceu comigo e com outras meninas: só ao ouvir outro relato que nos demos conta do que aconteceu conosco.

Esse texto foi escrito no dia 26 de setembro de 2014, quando tudo veio à tona e isso acabou sendo só um vômito. Nunca soube o que fazer com ele, o que fazer com essa história. Continuo sem saber. Continuo me sentindo calada, apesar da oportunidade de publicá-lo agora, com pequenas alterações e mudanças dos nomes todos, inclusive o meu, tanto para me preservar como também os citados nesse texto, quanto o próprio fotógrafo. Há mais de cinco meses essa história vive dentro de mim, acompanhada de um “não-saber”. Para mim, isso também é reflexo de tudo o que ainda carregamos.

Encorajo todas as mulheres a serem mais corajosas (do que eu). Porque não podemos mais nos calar. E isso foi o que tentei não fazer, ficar calada, mas sinto e admito que é um tanto covarde ainda. Que consigamos fazer isso por nós, pelas que foram, pelas que virão.

Lena*

* Os nomes originais foram omitidos a pedido dela

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/03/2015, em Uncategorized e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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