As mulheres, o 8 de março e a (re)invenção da cidade: pelo direito de circularmos e existirmos

por Bianca Rihan*

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“Bota abaixo”:  era  assim que a gente do Rio de Janeiro  identificava a reforma urbana conduzida pela administração Pereira Passos, no começo do século XX.

Meados de 1904 e a cidade abrigava uma população de aproximadamente um milhão de pessoas, sobretudo negrxs, camponesxs migrantes e imigrantes que projetavam, na então capital da República, o sonho de prosperidade. Porém, o intenso e desordenado crescimento, que levou numerosas famílias das classes populares a ocuparem regiões centrais – e estratégicas – da cidade, tornou-se uma afronta aos donos do poder e a seu projeto de modernização conservadora, que pretendia reconstruir o Rio de Janeiro à imagem e semelhança de Paris da Belle Époque.

Esta, no entanto, não é uma história de beleza, mas o início de um ciclo de injustiças, segregação social e muitos preconceitos. Na base da truculência, casas e histórias de vida, tempos de contato e laços de solidariedade foram demolidos, dando passagem às largas avenidas e ao ambiente higienizado que pretendiam as autoridades. O modus operandi “debaixo de cacete” impôs a transferência da população pobre para zonas afastadas do centro. E o investimento “modernizador” atingiu apenas aqueles pontos remetidos à chegada de estrangeirxs em destino turístico ou comercial, e à moradia das elites. Eis a origem da “cidade maravilhosa”: ao centro e à zona sul, tudo; ao “resto”, algo perto de nada.

Passado mais de um século da chamada “Belle Époque carioca”, a célebre frase de Karl Marx – forjada no “caçoar” de um Napoleão sobrinho bastante medíocre – não poderia ser tão bem aplicada a essas bandas da Guanabara: “a história acontece como tragédia e se repete como farsa”[1]. Em uma versão atualizada – e um tanto mais patética – de modernização ($) do Rio, Eduardo Paes – ou o novo Pereira Passos – e sua trupe promovem um processo violento de mercantilização do território urbano, entregando-o de mãos beijadas aos interesses do capital financeiro e especulativo.

Segundo o doutor em planejamento e professor do Ippur, Orlando Alves dos Santos Junior:

O que estamos vendo é um projeto de reestruturação urbana sem participação alguma da sociedade. São três pontos principais: o fortalecimento da Zona Sul, da Zona Portuária e a criação de uma nova centralidade na Barra da Tijuca, sob o guarda-chuva olímpico. Na verdade, o que ocorre sob esse argumento é uma grave intervenção urbana em função da indústria imobiliária. A presença dos moradores de classes mais pobres se tornou um entrave no meio do caminho a ser removido. [2]

Está dada a farsa da cidade olímpica. Quem paga o preço novamente? O povo. E exponencialmente sofrem as mulheres.

Desde 2014, na ocasião da realização da Copa do Mundo no Brasil, organizações feministas dos quatro cantos do país já apontavam para as engrenagens violentas que iam se estruturando nas cidades, e para o ataque direto à vida das mulheres. No Rio de Janeiro não foi diferente. Sob a retórica do progresso, da modernidade e dos megaeventos, acompanhamos milhares de pessoas despejadas de suas casas, realidade ainda mais dura para as mulheres pobres e negras, as mais afetadas pelas remoções (nada mais simbólico para as ações da “prefeitura olímpica”: neste 8 de março de 2016, dia internacional de luta das mulheres, Dona Penha, liderança comunitária da Vila Autódromo, teve sua casa demolida pelos homens de Eduardo Paes)  e maiores vítimas da exploração sexual e do tráfico de pessoas, que tornaram a crescer com a aproximação das olimpíadas neste ano de 2016.

Na rota dos tratores da prefeitura estão, ainda, antigas linhas de ônibus que têm seus trajetos encurtados, engordando os lucros das empresas de transporte e bagunçando as vidas de tanta gente. O público feminino, além de demorar bem mais para voltar para casa após dias desgastantes de trabalho e tantas baldeações, passa a se deparar frequentemente com situações de risco, como os casos de violência, assédio sexual e – no extremo – casos de estupro, aumentados consideravelmente em horários avançados, em ruas escuras, desertas e inseguras.

Vale acentuar que a sociedade patriarcal nos imputa a responsabilidade quase exclusiva sobre as crianças e xs idosxs próximxs (pois sim, somos nós mulheres que, na maioria dos casos, levamos filhxs à escola e xs familiares mais velhxs para procedimentos de cuidado). Logo, somos as mais abaladas com os preços abusivos das passagens – que precisamos adquirir para além do itinerário trabalho x casa – e com o tempo despendido nesses trajetos, o que restringe brutalmente nossos momentos de lazer e de acesso à cidade.

Diante de tantos exemplos, é bem óbvia a conclusão de que as feministas que ocupam as ruas do Rio de Janeiro e de todo o Brasil neste 8 de março não o fazem para se vitimizar, como sugere o padrão das abordagens midiáticas covardes, machistas e classistas que invadem nossas casas todos os dias. Nosso motivo está no extremo oposto: não aceitaremos mais nenhuma destruição provocada por esse sistema de exploração que arranca nossa autonomia de maneira radical, restringindo nossa  circulação nos espaços públicos e limitando, entre outras violências, as possibilidades de escolhermos livremente os nossos próprios caminhos.

Queremos acesso pleno à cidade em que vivemos, direito à circulação a qualquer hora do dia e da noite, assim como momentos de cultura e lazer livres de medo. Estamos nas ruas para dizer um basta à violência contra as mulheres e ao sentimento de insegurança em cada esquina que dobramos, sob o risco de toparmos com um agressor (falando em agressor, cabe aqui reiterar o repúdio das mulheres cariocas à candidatura de Pedro Paulo Carvalho para a nossa prefeitura, pois além de este senhor ser o representante simbólico do modelo castrador de cidade, que tanto nos violenta atualmente, é também um agressor físico de mulheres [3]).

Assim, apesar das capturas do mercado, que pauta o 8 de março como um dia de flores e bombons, organizamo-nos para reafirmá-lo como mais um dia de luta. Um dia em que transbordamos junto às nossas companheiras, compartilhando experiências que (re)existem e inventam novos tempos, novas possibilidades de luta, apesar das constantes tentativas de dominação e domesticação por parte do capital e da masculinidade opressora que o representa.

Com solidariedade, irreverência e criatividade, o feminismo está mobilizado a partir do mediato e do imediato, ativando possibilidades de transformação nas brechas e contradições das formas hegemônicas de poder.  Partilhar experiências para dar visibilidade aos nossos sofrimentos e desejos, às nossas vozes e corpos e, sobretudo, para ativar nossos laços de companheirismo e acolhimento, de irmandade e reconhecimento é o princípio de nossa potência. E é por isto que ocupamos as ruas: para botar na pista a política feminista dos afetos, inventora de mundos e de formas mais horizontais de agir e de existir, de ver e de ser vistx, de falar e de escutar. Estamos todas juntas na fabricação de nossa nova cidade e de nosso novo mundo possíveis!

[1] MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo , 2011.

[2] http://www.canalibase.org.br/dossie-remocoes-no-rio-atingidos-chegam-a-30-mil/

[3] Ver http://epoca.globo.com/tempo/expresso/noticia/2015/11/ex-mulher-de-pedro-paulo-prestou-queixa-contra-ele-por-agressao-ja-em-2008.html

 

* Bianca Rihan é historiadora, socialista e feminista, mestre em história social pela UFF e doutoranda em ciência da informação pelo Instituto Brasileiro em Informação Ciência e Tecnologia/ Escola de Comunicação da UFRJ.

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/03/2016, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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