Novas poéticas possíveis

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O Bahias Intemporais foi o evento de lançamento e celebração dos 4 anos da Cena Tropifágica. No dia 11 de junho participei da mesa Novas poéticas possíveis ao lado do Thiago Pondé e Jorge Mautner, e compartilho aqui com vocês um pouco das reflexões que eu trouxe. É claro que na hora nunca sai igual, mas o recado foi mais ou menos esse:


Olá boa tarde! Vocês não imaginam a nossa felicidade de estar aqui. Primeiro, porque eu sou carioca e adoro a Bahia rs. Mas principalmente por ver os frutos desse projeto tão especial vindo à público, assim ao vivo, pela primeira vez. Obrigada a todos e todas envolvidxs por isso: Governo do Estado da Bahia, as meninas da Multi, o Cine Teatro Solar Boa Vista, Pondé, Mautner, Galvão, Mariella, todos vocês.

Bom, eu quero começar contando uma história para vocês: um dia, um rapaz bem atentado das ideias sentia que seu local de origem tinha ficado pequeno pra ele e ouviu o chamado do seu coração de sair da Bahia para vivenciar outros galhos e seus macacos. Chegando lá ele encontrou novas ideias e parceiros, e depois de um tempo experimentando ele começou a sentir as amarras novamente. Algo ainda estava sufocado, algo que não cabia mais naquele script. Os modos de fazer, as hierarquias, as estéticas, e os assuntos não mais lhe cabiam. E ele não estava sozinho, havia encontrado novas referências e parcerias nesta jornada. E decidiram fazer algo diferente. Algo que nunca tinham visto, mas sabiam que não eram os únicos a sentir aquele desconforto. E sabiam que suas ideias chegariam até onde deveriam chegar. Eles queriam ganhar o mundo – e reinventaram os seus próprios.

Alguém tem uma ideia de quem estou falando? Aposto que muitos de vocês chutaram Caetano Veloso e a trupe da Tropicália. Sim, também poderia ser. Mas tô falando de outro baiano, esse cra aqu: Thiago Pondé, na época estudante de filosofia metido à artista que lá nos idos de 2000 foi me encontrar lá no Rio de Janeiro fazendo cultura no movimento estudantil. E sim, essa história é de tantos outros Thiagos, Alines, Caetanos, Jorges, Marias por aí… Porque todos nós temos um coração que não apenas bate, mas se inspira, vibra e grita coisas que muitas vezes insistimos em calar. Mas aqueles que fazem a diferença, esses dão ouvidos e vozes aos seus corações porque sabem que esse chamado faz parte de algo maior que eles. Alguns chamam de intuição, vocação, Deus interior. Tanto faz o nome, o que importa é esse frio na barriga e esse calorzinho no peito. E por isso eu pergunto: o que faz o seu coração vibrar?

E porque estou falando isso? Porque estamos aqui para falar de novas poéticas possíveis, não é mesmo? E quem poesia maior do que a batida do nosso coração? Tô falando sério. Peço a todos e todas vocês que estão na plateia, pessoal do apoio, Thiago e Mautner: fechem os olhos por um momento e reparem na sua respiração. Sintam o ar que entra pelo nariz, percorre todo o seu corpo, preenchendo cada espacinho seu de vida. E depois retorna ao mundo, colocando para fora tudo aquilo que não te serve mais. Sinta a Terra sob o seus pés te apoiando incondicionalmente. Não há namorado ou namorada, partido político, projeto cultural que te apoie mais do que a vida a sua volta. Respire fundo e sinta – não pense, não elabore, não fale – apenas sinta isso! Pronto, pode abrir os olhos.

Vocês sentem alguma diferença? Na loucurada dos nossos dias às vezes é tão difícil parar para simplesmente sentir esse estado de presença, não é mesmo? Então fica aqui essa dica, quando as ideias estiverem confusas, quando parecer não haver saída, simplesmente pare, feche o olho, respire fundo e sinta a Terra se manifestar através de você. Experimente não fazer nada, simplesmente deixe emergir.

Bom, agora voltando ao tema da mesa – novas poéticas possíveis – e vou explicar porque não estamos fugindo do assunto. No dia que eu, Pondé e a turma da UNE fomos entrevistar o Gil em 2010, quando toda essa história de Tropifagia surgiu, ele falou algo que tocou muito a gente: “A pauta do artista é uma folha em branco”. Ou seja, assim como respirar fundo e deixar o vazio falar por você, quando Gil diz isso ele traz a dimensão de que o processo criativo não pode seguir uma pauta pré escrita, pode sim ter um contexto, uma intenção, ou mesmo um objetivo. Mas a criação em si é como um ato de vida: espontâneo, e muito maior que nós, que muita vezes não sabemos, por isso devemos estar de olhos e ouvidos atentos.

E isso não se aplica apenas à criação artística, mas tudo aquilo que manifestamos no mundo. Seja você músico, pintora, produtor cultural, advogada, segurança, educadora, pai de família, presidenta do Brasil. Não importa: a Terra está falando através de você. E a natureza é muito, muito sábia, devíamos estar mais atentos. Como na música “O hippie”: “Primeiro vem a paz depois vem a ciência, prefiro a opinião que vem da natureza”. É isso. Se estamos falando de novas poéticas possíveis, e nosso corpo é pura poesia, o que me interessa saber é: o que estamos manifestando no mundo?

Quando pintou essa história de Cena Tropifágica pra gente, a nossa principal motivação era a de que não mais nos enquadrávamos naquele modo de produção cultural onde nos encontramos. Sabíamos que poderia ser diferente e foi ouvindo a esse chamado, bebendo nas fontes da Antropofagia e da Tropicália, que desenvolvemos esse conceito de TROPIFAGIA: comer o país tropical. Ou seja, o que seria esse Brasil hoje, revisto por ele mesmo, depois de já ter “comido” as referências estrangeiras, depois de já ter sido “comido” lá fora. O que o Brasil enquanto um espaço de experimentação artística – e também política, claro – manifesta hoje no mundo contemporâneo?

Naquela época eu tinha acabado de publicar um livro chamado “Produção de cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”, onde minha motivação era justamente essa. Isso foi em 2008, quando se comemoravam os 40 aos do maio de 68, da exposição “Nova objetividade brasileira” de Hélio Oiticica, os 80 anos do manifesto antropofágico. E ouvia muito que “não se produz mais cultura como antigamente”, ou “a juventude de hoje não se engaja politicamente como naquela época”. E daí que eu, como representante dessa geração, me sentia desafiada a mostrar que a gente faz arte e faz política sim! Só não era da mesma forma que tinha sido na geração de 28, na geração de 68, claro que não! O contexto era outro, as motivações eram outras, então, claro, a expressão também seria outra!

E eu acho que no meio desse caos político que estamos vivendo, é disso que a gente precisa, novas perguntas pois as velhas respostas já estão obsoletas! Tem um cara chamado Dee Hock que diz que a criatividade emerge justamente neste ponto entreo o CAOS e a ORDEM. Ou seja, não há respostas prontas que dêem conta do que realmente nos move, seja na arte ou na política – e o que seria de uma sem a outra?

Então eu acho que é isso, é nossa responsabilidade enquanto indivíduos, enquanto grupo social e enquanto parte deste planeta, estar atendo a esse ponto de equilíbrio entre o caos e a ordem que existe dentro e fora de cada um de nós, e manifestar aquilo que viemos manifestar. Isso é poesia.

Ah, e só pra finalizar: #ForaTemer. Obrigada!

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Saiba mais sobre a Cena Tropifágica:

 

 

Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 08/07/2016, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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