Sobre comer o país tropical

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Tropifagia: comer o país tropical. A antropofagia oswaldiana propunha comer o homem exterior em busca de uma ressignificação da identidade cultural brasileira, e a empreitada tropicalista tratou de misturar empiricamente referências nacionais e estrangeiras. Neste caminho, a proposta da Tropifagia seja a de voltar os olhares ao país tropical já hibridizado, já saboreado lá fora, e redescobrir um Brasil múltiplo, diverso, e muitas vezes, mesmo contraditório.

Os Pontos de Cultura deram este importantíssimo passo de “desvendar o Brasil debaixo pra cima”, e agora este mesmo Brasil se reencontra de forma protagonista, autônoma e empoderada, se mobilizando em rede face à mesma burocracia estatal que os gerou. A Tropifagia é fruto disso.

E por se tratar de um processo mais que um produto, talvez seja essa a dificuldade em explicá-la em palavras. Grande irmão tropifágico, Pondé expressou isso muito bem num dos milhares de e-mails que trocamos entre 2010 e 2012, entre Rio, Salvador e Paris, para que este projeto se concretizasse (um salve às redes digitais-afetivas!):

A tropifagia não tem a resposta pronta. A razão não pode operar sobre a sensibilidade é do lugar de que se faz sentindo mais do que raciocinando. Temos propósitos, objetivos, sim. Mas eles não se sobrepõem-se sobre a nossa experiência que por vezes é extremamente intuitiva, empírica, que se faz no caminho que traçamos. Como te disse, há essa necessidade “política” que é racional e nos pede uma clareza, porém melhor não cairmos nessa armadilha de querer formular com excelência. Jamais podemos reduzir toda Tropifagia a algum sentido magnânimo, senão o de estar tentando desvendar sempre o processo que acontece por vezes à nossa revelia.”

E ponha revelia nisso. Grandes parcerias de último minuto, skypes de madrugada para driblar o fuso horário, egos, pontos de vista e responsabilidades que chamam. Um grande encontro de vontades construtivas e poéticas híbridas, atreladas à criação de espaços de convivência criativa entre sujeitos sociais ética, estética e economicamente distintos.

Preferências à parte, acho que a faixa Yemanjá é a que mais simboliza isso.

A convite de Thiago Pondé, Mariella Santiago empresta sua maravilhosa voz à composição de Rafael Pondé, Tico Marcos e Roberto Leite, num delicioso tabuleiro de baianos. Em Paris, chega às minhas mãos através do DJ mineiro Corisco Dub a revista Bravo! que traz na capa a matéria “A voz e o computador”, sobre o novo disco de Gal Costa produzido por Caetano Veloso. Naquele momento, entendi que a inovação que a guitarra elétrica tropicalista trazia para a música brasileira é hoje representada pela produção musical caseira e de qualidade (salve Amarelo Estúdio!), entre softwares de áudio e e-mails. Na hora, pensei que Yemanjá poderia representar isso, no grande trabalho de experimentação estética que é a Tropifagia – a mistura de referências, o diálogo entre a cultura popular dos orixás e ijexá e a cultura digital do remix e sintetizadores – e convidei Corisco para remixar a música. Todo este trabalho tem sido feito à base de parcerias e encontros inesperados. Eis então que, sem saberem que já estavam ligados pelo processo tropifágico, Mariella, em turnê em Paris, encontra Corisco e o grupo parisiense de maracatu Tamaracá e estabelecem uma parceria para tocarem juntos no concurso de batucada da cidade. Conexões feitas e referências compartilhadas, eis que a rainha do mar recebe em oferenda uma versão dub com um toque afrobeat, e continua a abrir nossos caminhos na empreitada tropifágica.

Uma investigação estética – filosófica sobre as possíveis relações entre cultura, política, comunicação, conhecimento e processo criativo. Motivados por uma crítica a um sistema com o qual não concordamos, embalados por muitas horas de estúdio, mesas de bar e trocas de e-mail, e simbolizados num primeiro produto artístico que é o EP Comendo o País Tropical.

À sua época, a Tropicália se reivindicava mais como um “momento” do que que um “movimento”. Essa era a subversão: num contexto histórico onde movimentos políticos eram necessários para se opor à ditadura militar, a reivindicação enquanto “momento” trazia uma perspectiva diferente. Da mesma forma, acho que no cenário (quase ditatorial, diga-se de passagem) da indústria cultural hoje, o fato de ser “processo” mais que “produto” se aproxima desse mesmo paradigma (inclusive esteticamente nas palavras: momento x movimento; processo x produto).

Assim, a Tropifagia pode ser entendida como a motivação que faz com que tantas ideias e parceiros transitem em torno de um projeto mais ou menos comum, preservando individualidades e mesmo divergências, sob uma dimensão coletiva agregadora. E sem dúvida alguma, não somos os primeiros, nem seremos os últimos, e muito menos os únicos. De alguma forma é isso que expressa a contracapa do EP: esta experimentação só irá amadurecer conectada em rede.

No sentido da produção de subjetividade, também são redes micropolíticas (citando uma das minhas principais fontes de inspiração, Felix Guattari) os Pontos de Cultura, a Agência de Redes pra Juventude, a(s) Casa(s) da Cultura Digital, o Fora do Eixo, o 15M espanhol, e por aí vai.

Acredito que cada ator social encontra uma forma de contribuir ao mundo a sua volta a partir de algo que os motive, sejam experimentações estético-políticas, superação de arranjos produtivos, laboratório de ideias digitais-afetivas. O que simplesmente me leva a crer que a sensação de inovação e descoberta que tomou um jovem baiano de Santo Amaro a ponto de fazê-lo reunir a trupe tropicalista em torno de um projeto comum, é a mesma que levaram estas – e outras – boas ideias a saírem do papel.

E, na esperança que muitas outras ainda saiam, fica aqui esta pequena contribuição tropifágica, indignada e micropolítica. Bom apetite!

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Sobre Aline Satyan

Aline Satyan é formada em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8 e autora do livro “Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura”. Com experiência em políticas culturais e programas de formação para a cultura, trabalhou em diferentes projetos na esfera governamental e universitária. Há alguns anos tem se dedicado a estudar processos de colaboração e atuar como educadora, facilitadora de grupos e consultora de gestão em organizações culturais. Certificou-se em design para sustentabilidade no Programa Gaia Education na ecovila Terra Una (Liberdade, MG) em 2014, Aprofundamento em Dragon Dreaming na Pedra do Sabiá (Itacaré, BA) em 2015 e em Design Permacultural no Instituto Pindorama (Nova Friburgo, RJ) em 2016. É coordenadora do programa Gaia Jovem Serrano, co-fundadora da Cena Tropifágica e da Txai Design de Experiências, e sua principal busca atualmente é por uma vida de consciência, criatividade e em cooperação. Para saber mais: https://www.facebook.com/gaiajovemserrano/ https://www.facebook.com/txaidesigndeexperiencias/ http://www.cenatropifagica.com/

Publicado em 10/03/2017, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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